Biografia da Autora

Camila Passatuto nasceu em 1988, na cidade de São Paulo. Autora dos livros "Nequice: Lapso na Função Supressora" (Editora Penalux, 2018) e "TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada" (Editora Penalux, 2017).

Editora do projeto editorial O Último Leitor Morreu (conheça o projeto e as publicações). Escreve desde os 11 anos e começou a atuar nos meios digitais, com blogs de poesias e participações em diversas revistas e projetos literários, em 2007.

Contato: camila.passatuto@gmail.com


terça-feira, 23 de julho de 2013

Escambo

Você murchou tão cedo
Tão doce

Abreviou nossa estadia
Um querer
Que mal queria

Eu pude tocar
A clave dos dias.

Hoje é só terra
O que teu azul
Mira

Debaixo de mim
No rubro de cama
Naquilo que me
Esvazia

Tocas e troca
O verbo
Que em ti
Hoje é partida.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Da vida

A vida proporciona prejuízos necessários. E sento nessa cadeira, com o despertar em súplica; grito com os neurônios e ouço debater alojados-sentimentos.
Nasci sem o controle da alma, mas tudo bem. Sou de falta tão grande, de tão tudo, que corro até sangrar os pé... só para preencher o que parece um atolado de nada. A vida nos joga em déficit no mundo. E ainda trago o queimar de versos entre os dentes, pois bem, salva algum instante. Não sei por onde e nunca pude saber, mas o adentrar nas almas seria o crédito que meus lábios sussurram em desejo. A vida já nos caloteia no ventre, tirando nossa paz, nosso silêncio, nossa mãe, nossa doce Ilíada do não existir...

By Camila Passatuto

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Vidinha

Fala misturado
Esquece
Pontua achados.

Samba se é ritmo
Rima pele e água
Versa

Bate corpo
Língua e atrito

Gosta
Faz poesia
Rebela a morte
E no final
Excita a vida.

By Camila Passatuto

terça-feira, 2 de julho de 2013

Canção de guerra

Sou
O que boca
Escapa

Espada
De quem tem medo.

Urro
Murro
Me abafo
Te bato.

Somos
Teu suspiro.
Medo e sacrifício.

Vem.
Nua
Que me cobre
O corpo torto.

Sou teu pertence
Em campos
Aos prantos
Sem balas alojadas.

Foice,
Quem falou
Tomou.

Sou um frio
O que te espera
Na pressa de um assobio bobo.

Calafrios
São teus seios
A tocar meus lábios.

Abram as portas
Fugitivo
Adentra sua família
Deslumbra teus motivos.

Sou
O que do sangue chora
Bom de beber
Ruim de lembrar
Lá 
Na boa aurora.

By Camila Passatuto

terça-feira, 25 de junho de 2013

Uma carta e um pedido

Não suporto os elogios.

A cada palavra eu apodreço, 
Os olhares e sorrisos escorregam
Mofam,
Silenciosos-brutos, em meu chão. 

Observo os versos recentes

Enojo-me
Tamanho chorume que nutre tudo.

Vejo que consumo um grande vazio

Perdi, perspicaz, o caminho das palavras
do sentido e da razão.

Sofro 

Por tanta vitalidade...

(Meu filho, compreendo que o berço da morte me acalanta há tempos e não ouso fingir um verso sequer.) 

Sou o meu nada
mais profundo (hoje)
dos nadas que me fui.

Sofro de mim
isso anula.

Quem desejava? 


Encomendaram alegria e amores...
Negociei a arte
a parte no contrato obscuro 
e vendi almas por preços chorosos.
Meus deuses, as suplicas são puras,
sem controles 
sem acordos leves.

Não me doem os elogios
homófonos e homógrafos.  

Preciso da solidão absoluta.
A solidão da alma no mundo
Aquela que esfria o existir dos condenados ao exímio prazer, e tortura, do sentir.


By Camila Passatuto

quarta-feira, 19 de junho de 2013

No discurso

Durante os afrouxes de sua voz
Vi rascante tantas almas.

Observei as lábias comerciantes
E os joelhos russos,

Eram amantes que fugiam
Sem notas delicadas
Em peles vermelhas

Vide as meninas
Mal amadas.

Devoto de tudo que ali
Eu aqui anotava

Pois, depois, quem iria
A mim
Macular a história.

Testa
Minha
Por tua mão
Rachada.

Vi homens mortos
Sem leitos
Sem pálpebras.

Ruinoso foi
Cada montante
De cada palavra

Hoje acanho meu corpo
Na cadeira nova
Que doaram à poeta

Não leve de mim
Nem traga

A imortalidade
Eu ouvi
Naquela praça.

Dia comum
De ar seco
Bocas abertas,

De mentes
(Vazias)
Um tanto
Fechadas.


By Camila Passatuto

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Recado

Marginalizo o amor. Talvez para tê-lo como mestre e não como fonte daquilo que quero. Marginalizo o amor. Por pura alegoria dos corpos que em mim trafegam. Por repetições caóticas sem síntese em meio tanta poesia. Marginalizo por amor, rebeldia e esperança. Talvez para o real tocar o imaginário; sempre às margens de um sentimento que nunca me sabe, que nunca o sei...

By Camila Passatuto

terça-feira, 4 de junho de 2013

Alors il ya la vie

Ela namora meu quente.
Extrapola.

Vizinhança beata,
Maria,
Goza.

Ela namora minhas pernas,
Adentra quando quer.

Os meninos-fontes
Brincam na praça

Impolutos,
Virgem-Maria!

Ela namora meus dedos,

Adentro n’alma
Quando lembro...

(Repelo
Apelo)

Fúsil de anular
Tanto amor,

Era guerra de povos distantes
Que poema meu cinzou.

E ela se apoia no batente
Olha minhas nuvens
Ajeita um sentimento

Esquecemos

E escrevo um livro
Enquanto a vida
Me permite
Brando amor.

By Camila Passatuto


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Das ninfas (Proteção)

Minhas águas meninas
Percorrem
De abraçadas o alento
Da perpetuidade

Ora verde oliva
Ora bege vida.

Trave minhas línguas
Aos berros
Aos medos de pleitos.

(Eclipsar as almas)

Sereno
Boca no verde
Riacho em plena avenida

Pensara em ser campo
Mas apenas
Era corpo
Morto nas delícias.

(Sacia, farta...
Faz-me luxúria
Tira e atira
Coloca-me de luto).

Minhas águas meninas
Que lavam sem banhar

Uma dor carecida
Plenitude
De verso em vida.

Abençoem os coitados
Cegos da palha
Que pulam canteiros

Festivos canteiros

Agora é alma
Que se faz
Na falta de corpo

Abençoa e morde
Faça-nos sentir
No arguto instante
Da ida.

No arguto instante

Da ida.

By Camila Passatuto

Mosteiro de esquina

Roga ao som da sineta
Na prolação da fé.
Insinua tua boca
Em pele de salvação.

Distraio em logogrifo
Alguns minutos
Da pouca vida
Prematura.

Ajoelha poesia
Na saliva minha

Ajoelha

Clama e proclama
O verso santo
Das pernas cruas

Roga ao som da sineta
Nossa liberta voz
Lutuosa de hoje
Em tom lúgubre de ontem...

By Camila Passatuto

terça-feira, 23 de abril de 2013

Relatos 2


Senti toda aquela insanidade me acariciar os lábios, tomava em mãos minhas verdades absurdas e as lançava pelas paredes negras. Dentro de mim parte do mundo habitava, eram prédios em forma de gatos e garotas rastejando em seus vestidos amarelos - a contrastar minha vontade.

Vozes que de onde nunca vinham, sempre estavam. Era preciso um controle, gritavam os medrosos; e quem  ligava para um corpo que trepidava (?)... Eram pesadelos demais em todas as esquinas e eu senti a amargura daquela gente penetrando meus ouvidos... E dancei só pela vastidão da avenida úmida, dos faróis verdes, das crianças suas, do trovão espelho.

E a entrega do ser diante toda realidade e distimia do mundo, eles gritavam: “sonhe, seja a felicidade que quer!” . E eu tinha insônia da vida.

Bebi num bar qualquer, acompanhado de corpos e copos que não pude fazer distinção. Foi ali que senti o convite do paladar, ela chegou mansa, sorriu moça e meus olhos blindados ofereceram minha boca, foi ali, no qualquer de um dia que senti toda vossa insanidade em mim.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Não sou eu

Meus últimos textos, minhas últimas lágrimas... Acho que fugi de mim, deixei-me no vácuo do não reconhecer meus atos-sentimentos. E olhe quantas vírgulas, por onde andam meus pontos?

Não sou eu.

Engaiolaram minha brutalidade e não aprendi a lidar com o melado da rotina. Sigo a escorregar, sempre. Tentaram dominar o que eu era, mas acalmar uma alma que de sua vastidão e destempero fez sentido limiar do ser... Um pecado.

Tirem os remédios e as regras de mim... pois não sou eu esse a buscar algum sentido para aquilo que me bastava a vida.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Anistia


(Avisem os anjos)

O povo deleita do poder
De facilitar as injúrias
Pecaminosas do poder.

Ensinaram o perdão
da culpa, o juízo.

Deitem na estrada
Pois os caminhões
Irão romper
Seus músculos.

O sorriso fácil
Na sacola plástica
Basta.

Salve seu rei
Limpe sua honra.

E o mundo
Será uma velha transa,
Um sorriso pouco

(A nossa mentira boa)

Que irá prestar
Para preencher
O vazio dos dentes.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 28 de março de 2013

Deus e as Regalias


O vermelho jorrou pelos dedos.

Que destino!

Na primeira esquina
Manchei a donzela
Pelas pernas.

Que destino!

A criança queria
Do outro lado da rua
Um dengo

Abracei forte
E sua carência
Rubra ficou

Pelos meus braços
seu corpo pequeno
Desmanchou...

Sem contar
Das noites
Das fugas
Dos amigos
Que acalantei,

Dos amores
Que em mim
Vivi e doei.

Tanta dor
Eu fiz, Meu Deus!

E no momento
De partir
Ele se fez pra mim.

Ora, Meu Pai,
O que reserva
Para quem tanto
Esmoreceu (n)a vida?

Nada haverá, meu filho,
Apenas
Sua glote
Tomada por tinta.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 27 de março de 2013

Ajustes


Não deixei de existir.
Digo isso ao tempo
Que estrapola
nos sumiços.

Procurei pela casa
os retratos,
as marcas do que pude...

Descalcifiquei

é tudo um voo
das premissas
desoladas.

E por fim;
O triste sorriso
Alavanca um abraço.

E assim agarro o leito
que ajusta
o fim
a mim.

By Camila Passatuto

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Avisos


Sofro do silêncio
Esse ato nulo
Que entrava os dentes
Persegue e some.

Sofro de tanto
Que nem pranto.

Lembro dos dias.
Cheiro forte...
É noite.

Sofremos do mesmo
Do mal dos covardes
Espelho que não reflete.

Dorme
Minha alma
Dorme na paz inquietante do não poder
Do não falar.

Morre miúdo
Susto de pensamentos
De verbos possíveis.

Cala mais um pouco
Sua existência.

Sofro do silêncio
Da bala alojada.
Filhos em luto.

Sofro da vida
Injustiça moderna
Que curtem
Os loucos...
Aos poucos.

By Camila Passatuto

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Afogar e Guardar


Eu não me sinto bem,
Mas quem consegue
Com água até as sobrancelhas?

(grito)

Quero um colo quente,

E mãe não escuta
Sua pequena cria
Chorar por dentro.

Eu acredito em fantasmas

Nos arcanjos
Que rondam
(cegos)
Minha cama.

Afogo um roncar
Em lacunas
de breve solidão

Respiro.

Findo
Na última
Esperança farta
De boiar a vida
...

By Camila Passatuto

Mais uma carta


Rabiscamos demais as leis
(olhe)
Nosso autor favorito
Acabou de morrer

Na história
retardada 
da tv.

Nessas calibradas do tempo
Tanta batalha
Que não compreendi.

Precisei falar sério
Expor a verdade.

Fumamos na calçada
E rimos de nossos cabelos,
Enquanto
Os prédios ao lado pediam silêncio.

Eu posso aquarelar
Quando quero

(eu quero)

Diga que vou passar as férias em cima dos cabos de alta tensão
Recitando
Nossa liberdade de sentir.

By Camila Passatuto


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Observação



Um tempo sem sair do ninho, sentir o asfalto rasgar a sola do meu sapato; e qualquer olhar me leva na viajem dos cílios longos - uma curvatura imprecisa de mulher.

Os muros da cidade esqueceram as tintas, os jovens não mais LSD, não mais viola elétrica no quintal de terra batida, das batidas mulatas do meu sonho.

E eles não servem mais cervejas apenas pelo amor de estontear a alma... Querem o meu dinheiro que sobra nos impostos desonestos.

O relógio sempre para dentro de casa, incutido na mente, sempre corre o desespero. Pois a cidade cinza minha oportunidade e só a noite brilha as luzes do corpo pouco vestido e minuta os minutos de palavras ditas a justificar meu atraso de algum período eu bem queria.

Um tempo sem sair e olhe a vitalidade desse suor que me espalha, leva em mar de mim o sal que sou... e vem brisa do leste a secar tudo que possa marcar a roupa larga de linho.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

De proclamar.


Na sala ao lado
Urge esplendor
Não importa
Se há sangue
Não ligamos
Se o pobre
Sente a dor.

O uniforme condena
Daquilo que dizem
Amor já passou
Hoje apenas
Restam os pontos
Da profundidade
Do metal
Em pele.

Corre e pegue panos
Pois irá parir aqui mesmo
Um futuro sem cinza
Com acordes medonhos

Senta e se acalma
Pois tudo
Pertence.

Já houve morte aparente
Mas não importamos

Nasceu o distúrbio
Senhor dos vidros
Transparente
Na mentira que julgamos.

E de perto é nada
Esse poema
Da maleficência.

Olhe de longe.

Os sentidos não rimam
Nada mais
Nada
Cais
Barco
Glote

Morremos na praia

E na sala ao lado
Uma tortura
Suportável
Em nós.

By Camila Passatuto