Biografia da Autora

Camila Passatuto nasceu em 1988, na cidade de São Paulo. Autora dos livros "Nequice: Lapso na Função Supressora" (Editora Penalux, 2018) e "TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada" (Editora Penalux, 2017).

Editora do projeto editorial O Último Leitor Morreu (conheça o projeto e as publicações). Escreve desde os 11 anos e começou a atuar nos meios digitais, com blogs de poesias e participações em diversas revistas e projetos literários, em 2007.

Contato: camila.passatuto@gmail.com


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Afogar e Guardar


Eu não me sinto bem,
Mas quem consegue
Com água até as sobrancelhas?

(grito)

Quero um colo quente,

E mãe não escuta
Sua pequena cria
Chorar por dentro.

Eu acredito em fantasmas

Nos arcanjos
Que rondam
(cegos)
Minha cama.

Afogo um roncar
Em lacunas
de breve solidão

Respiro.

Findo
Na última
Esperança farta
De boiar a vida
...

By Camila Passatuto

Mais uma carta


Rabiscamos demais as leis
(olhe)
Nosso autor favorito
Acabou de morrer

Na história
retardada 
da tv.

Nessas calibradas do tempo
Tanta batalha
Que não compreendi.

Precisei falar sério
Expor a verdade.

Fumamos na calçada
E rimos de nossos cabelos,
Enquanto
Os prédios ao lado pediam silêncio.

Eu posso aquarelar
Quando quero

(eu quero)

Diga que vou passar as férias em cima dos cabos de alta tensão
Recitando
Nossa liberdade de sentir.

By Camila Passatuto


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Observação



Um tempo sem sair do ninho, sentir o asfalto rasgar a sola do meu sapato; e qualquer olhar me leva na viajem dos cílios longos - uma curvatura imprecisa de mulher.

Os muros da cidade esqueceram as tintas, os jovens não mais LSD, não mais viola elétrica no quintal de terra batida, das batidas mulatas do meu sonho.

E eles não servem mais cervejas apenas pelo amor de estontear a alma... Querem o meu dinheiro que sobra nos impostos desonestos.

O relógio sempre para dentro de casa, incutido na mente, sempre corre o desespero. Pois a cidade cinza minha oportunidade e só a noite brilha as luzes do corpo pouco vestido e minuta os minutos de palavras ditas a justificar meu atraso de algum período eu bem queria.

Um tempo sem sair e olhe a vitalidade desse suor que me espalha, leva em mar de mim o sal que sou... e vem brisa do leste a secar tudo que possa marcar a roupa larga de linho.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

De proclamar.


Na sala ao lado
Urge esplendor
Não importa
Se há sangue
Não ligamos
Se o pobre
Sente a dor.

O uniforme condena
Daquilo que dizem
Amor já passou
Hoje apenas
Restam os pontos
Da profundidade
Do metal
Em pele.

Corre e pegue panos
Pois irá parir aqui mesmo
Um futuro sem cinza
Com acordes medonhos

Senta e se acalma
Pois tudo
Pertence.

Já houve morte aparente
Mas não importamos

Nasceu o distúrbio
Senhor dos vidros
Transparente
Na mentira que julgamos.

E de perto é nada
Esse poema
Da maleficência.

Olhe de longe.

Os sentidos não rimam
Nada mais
Nada
Cais
Barco
Glote

Morremos na praia

E na sala ao lado
Uma tortura
Suportável
Em nós.

By Camila Passatuto

sábado, 5 de janeiro de 2013

Pedofilia


Você me levou ao playground e acabou com a brincadeira.
Passou em minha pele os doces que eu não queria provar. Foi ali, sob o nascer de nuvens tristes, que entendi a tragédia em seu olhar.
Você se tornou o meu monstro do armário, aprumado em praça publica sem a consciência do viver e outros verbos.
Ao fundo do dia escutava, quem percebia na brisa parada os instantes que eram para sempre, The Faces melodiando nosso drama particular.
Eu estava sujo em um mundo intocável e você apareceu para banhar meu pequeno corpo com a lama mais densa que sua mente pudera produzir.

E ficamos no balanço da cumplicidade.

Nem eu e nem você poderíamos adivinhar que apenas meu espírito sedia espaço para sua carne... E comecei a avoar sem limites para nosso nulo que em dias normais em mim nunca existia.

By Camila Passatuto

Diálogo com a porta.


(Abram as portas)

Esqueci no asfalto a falta
Que a terra me faz.

Em órbita, lunático que sou,
Descobri os costumes do ar.

E você pergunta sobre
Minhas cavernas...

Hoje será o dia em que as
Sombras, vadias, dançarão.

Em cabeça oca.

(diz o filósofo em mim)

Procurei nos corredores
Algo que faça de mim algum
Sentido
Que figurado me desfigure
Da pouca loucura que
Caminha em saltos.

Esqueci-me das políticas que
Alienaram (afirmou)
Mas quem lembrou?

Gritos das maquinas humanas...

Hoje a fome
Lembrou
do estômago.

E penso em partir
Para o entendível dos tolos
(Quem sobe, quem sabe)
E serei estrume-alimento
Para boca sem pudor.

Nossas crianças em caixas.

E lançaram meus dejetos
Poéticos
Ao ar que ninguém suporta
Respirar;

Sigo manco
(tóxico) a poetar.

By Camila Passatuto

Musa-te


Banhou-me com teu sangue.
Os gritos abafados
Gemiam, agora,
Baixos.

Nua, vestida de ação.
Um rio pelos seios,
Crateras no crânio.

Só queria brincar.

Relutou, relutei.
Assustou, espanquei.

Precisava...
Inspirar-me.

(era preciso
um verso que apunhalasse.)

Musa, tu és para isso.
Paraíso e poesia.

Por capricho, em feitiçaria
Quando poeta quer
Te finda.

By Camila Passatuto



sábado, 29 de dezembro de 2012

Três Acidentes Poéticos


Coloquei minha paz na janela.
Acreditei.

Voar sem as mariposas,
Era sensação a sentir
A partir.

E caiu dos passos de andar qualquer...
Era ela
           Tão rápida e ávida de escuridão.

[Os guardas noturnos
Nunca foram amigos.

Levaram os meus
Mataram os nossos.

Nunca mais pude ser;
E eles azuis em fardas
Adormeciam os garotos
Em vermelhos silenciosos.]

Eu, já, nunca mais...
Nunca mais abranqueava.

Os vasos na varanda
Um cheiro de verde
Um equilíbrio de planta.

De um esbarro
Distraído
Inocente
Lá se foi
Minha paz
Pela janela
A matar na calçada
A mais bela das belas.

Voar sem as mariposas
Esse foi um pecado
Oh pecado
De verso cidadão
E lá se foi minha liberdade
Presa em papel
De grades finas.

Amargo de espelhar

Então
Sentei miúdo
Do meu outro lado
E pude em mim
A mim mesmo
O meu eu
Cativar. 

By Camila Passatuto

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Do mundo absurdo. Da vida absurda


Deixe-me rolar só um pouquinho,
Encaixar holocausto em pernas.

Meus versos crescem tão breves.
Percebe o delírio que escapa?

Deixe-me repetir a primeira estrofe
Lembrar nossos lírios
Nossos cílios molhados
Mar que te levava aos poucos
E te retornava chuva ao final da tarde.

Minhas rimas estão frouxas.
Percebe o delírio que escapa?

Fico pelo espaço
Na espera do nosso amanhã
No querer justo do andar
Da pátria azul que sonhávamos.

Os desejos andam puros demais
Resultado de nadas em guerras.

Na guerra do mundo absurdo.

Deixe-me ciranda
No quintal de terra batida
No fim de uma saudade que provoco.

Deixe-me livre
Deixe-me branco
Deixe-me decassílabo.

Assopra minha existência
Entre teus lábios firmes.

Deixe-me ser poesia
Nesse caos
de vida.

Nesse caco de vida absurda.

By Camila Passatuto

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ato 1


Andei até a esquina; apenas flores mortas na vitrine amarelada... prontas para alegrar moças inseguras. Passo a passo até a autoestrada e carros corriam cegos para lugares que eu sabia - não estava o que queria minha rasgada alma.

O espelho sempre foi o melhor lugar. Olhei e não vi.

Talvez acabasse a procura e o objeto procurado. Acabou sem saber, sem saber-se... Sem eu saber o que era aquela minha jornada maluca.

Perceba... As luzes casadas com os pingos de chuva, o som do outro lado do bar e olha lá... Não. Não era ela - a felicidade que me desejava.

Deitei na cama. Desprovido de sussurros e forças. Lembrei e vi flores ao redor, senti os pneus ainda quentes em mim, pude ver minha face amarga e branca demais... Deitei em mim e isso não mais adiantava. 
Era  madeira morna e senhoras aos prantos. Olha lá... Era eu a comemorar. Era a morte falando baixinho e meu espírito a escutar.

Vamos, deixe o corpo esmagado para os vermes, venha que é hora de chá na academia. Venha que as ninfas de ilha qualquer estão a dormir e a sonhar. Venha que andar até a esquina com os olhos fechados foi perigoso demais.

By Camila Passatuto

sábado, 8 de dezembro de 2012

Insatisfação


Indo ainda lá no longe
O maltrato da vida
Rompe nas guias vazias
A amante poesia.

O branco da página chora,
Grita a dor das ideias absurdas.

Tenho medo, tens também.

E fico calmo.
Ora sim e ora não.

Chega o som da campainha,
Passos soldados a amedrontar...

Percebo que  poesia cansou
Deitou menina em meu colo.
Chorou.

E espaço.

Confusa me fez confessar.

Quero de ti abrigo,
Os porquês dos inaptos,
Vazios alados, meio vida.
Certa lâmina do saber.

Tirou do colo aquilo que me deitava a mente.

E fico calmo,
Vejo
Escrevo.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Luto

The Doors na gafieira
E minha nega está éter na parede branca

Todos deixam de observar as tonalidades
E empurram o prazer para dentro.

Eram pés e braços
Em um ritmo que assustava.

Pensamos que somos
E acabamos quase nada.

Eram pés e braços
Em um carnaval sem mulatas.

Queria a luz
Possuir a matéria.
Queria eu
Conservar em plano superior
A mesmice de sempre.

Pois,

Gritou que doeu
E eram pés e braços,
Minha nega, a esmagar.

By Camila Passatuto

Non


Não sei amores
Do pouco que amei
Fiz folhear
As mãos
Em mim.

By Camila Passatuto

Hoje, agora, minuto, apavora.


Será que o tempo passou
Comeu o que era
E se foi com os papéis?

Diga e acorde em seguida.

Um, dois, três...
Mais burros desconstruindo
Or mais limpos entendendo?

Será que tempo passou
E levou de mim
O pouco de paixão
Que herdei...

E sem ponteiros 
Time comes...
Tempo devora
 E acalanta o agora.

By Camila Passatuto

Poema para as tardes


Todos na calmaria de seus ninhos
E passo, ao chamar calada, o que procuro,
 – Você ficou tempo demais em mim –
Eu te amo, Eu te amo e oras! Perdi...

Sinto que poderíamos,
Mas a humanidade
Deixou de percorrer
O caminho dos olhos

(Alguém derramou vermelho demais)

Escalamos as montanhas
E lá, em alto voar,
– não agradamos o superior –
Não agradamos a própria excitação.

(O que seria poesia? – Perguntou em gemidos)

Inutilidades!
Estamos aqui,
Presos na liberdade que cederam.

Todos na calmaria de seus ninhos...
E eu descalça
Das palavras simples
Das frases compostas
Dos adjuntos que corrompem.

Só desejo o cru daquela
Tinta pouca
Esquecida no alto-calante
(Calante)
De algum desorientado.

Morremos e em luto
Passamos por ela:
Viela Adoniran Barbosa.

(Por que grande avenida
Se as almas que salvou
Eram nobres
De suas malocadas paulistas?)

Obs.:
Deixei de rimar e fazer
Sentido, amor,

Nessa tarde de ninhos.

By Camila Passatuto

sábado, 1 de dezembro de 2012

Das Brisas ( O que não pude salvar na alma dos que ficavam)

Passou e não pude raptá-la.
Pus-me a observar
Como calango sofredor.

Isso - assim - me confortara.

Quebravam as dores
No expoente de praia
- Apenas as sombras me eram -
Quem a ti em ti surfara?

E os olhos rubros de idas
Eram de mim o que em mim
Mais bonito o tempo estagnava.

Passou a fome de filha?

Fiz anotá-la,
Em paranoia de poeta.

Ela em mim (assim)
Pra sempre ficara.

By Camila Passatuto

domingo, 18 de novembro de 2012

Pontuar

Os olhos
Aos alhos
 - Percorrem minhas
(agonias -
            famintas)
- de temperos -
         "em água..."
               Sem lágrimas.


By Camila Passatuto

Ode à Vergonha (Brazil)

Depois daquela tarde – espiei melhor os olhares -
Alertavam, em si, moedas em louvor.

Depois dos tons (dos tombos);
Muita alma,
Pouco amor.

Permitamos.
Oh, virgens, permitais.
(Sexo Arcanjo)

Adentrou os documentos
Restou um país (calçolas e liras)
Terra sem cais, sem mais...

Leis absurdas
Que devorastes os versos miúdos,
Filhos da ponte: devolvam minha honra de anti-herói.  

E penso
Ao lado
Esquerdo.

E lento
Direito.

Sigo moderno,
Cinza do que foi,
Paramos parâmetros cotidianos.

Choro como risos em ti,
Fácil de esquecer
Aquilo que mata
O bom de nós...
A alegria dos filhos de milênio.

E depois daquela tarde – entendi melhor os alardes –
Destronaram o certo,
Corruptos de tudo
Mancharam nossa boa juventude...

Depois do tom
Cinza
Do que foi o bom de nós.

By Camila Passatuto

domingo, 11 de novembro de 2012

Aos que lutam


Você pensou que ao colher a flor o enigma do mundo não derramaria. Mas eu estava ativo na ação, percebi todo o incomodo. Ninguém quis te deixar para trás, mas as coisas acontecem de um jeito, às vezes amargo...  Quem sabe sem paz.

Abracei (estreito) o que foi; e assim muitos dos meus suplicaram por orientações para o dia que iria seguir vermelho e inchado... Perguntam por paz.

Desesperado. Relutei dentro e fora do que vivia. Paz nos dias de hoje... Talvez um quinhão de bebida, infantaria e mentiras por cima dos muros não rabiscados.

Olho para os restos, bichos e brilhos estonteantes que somos; e que sinal lanço para salvar?

Você pensou em redenção. Porém o tempo pratica na ciranda as estratégias que bem o quer. E digo -Não manche o sorriso, não perca as bocas e as pernas noviças...
Eu pensei em gritar: Agarre o não querem ceder e escreva em boa letra qualquer felicidade, ou simples oração.

O tempo sempre é vasto e escasso, furacão de sim e não... e todos pediam por palavras, naquelas noites verdes, estranhas, feitas de lutas soltas e guerras livres de nossas mentes jovens e maciças.

Aos que lutam,


By Camila Passatuto

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Sem tempo?


Precisava de um minuto a mais em sua vida, repetir algumas palavras frouxas que residiam, ilegais, em minha garganta rouca. Quem sabe assim, em golpe esperto, você soubesse dos desprazeres que ali abrasavam mais um velho sem as promessas do amanhã.

Ao acalantar seu olhar em mim perdi as vírgulas e o passado; eu precisei me apoiar em pedaço de parede, em madeiras esquecidas nos cantos, em pernas fortes que se abriam, em mares escuros que nos submergiam...

Eu já avoava sem querer perder o chão e ganhar os ares.

Eu precisava de um minuto a mais antes de minha ida, mas ora, que triste partida... Não pude confessar, rezar, lastimar, praguejar nossa miúda história.

 Levaram-me antes, esqueceram-me depois.

E tanto eu a ti eu tinha que tudo se foi comigo.

By Camila Passatuto