Biografia da Autora

Camila Passatuto nasceu em 1988, na cidade de São Paulo. Autora dos livros "Nequice: Lapso na Função Supressora" (Editora Penalux, 2018) e "TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada" (Editora Penalux, 2017).

Editora do projeto editorial O Último Leitor Morreu (conheça o projeto e as publicações). Escreve desde os 11 anos e começou a atuar nos meios digitais, com blogs de poesias e participações em diversas revistas e projetos literários, em 2007.

Contato: camila.passatuto@gmail.com


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Manque Quelque Chose


Hoje não existe a esperança aqui.
Foi a última a me dizer adeus, foi.
Necessidade de mais alguém, não.
Deixe ir o que for para me agradar.

A regra corre assim, em dias ruins.
Não é a saudade que assola, não é.
Pisaram muito forte aqui, não dói.
O problema é que desaprendi a sentir.

Hoje não existe aquilo que um dia sorri.
Apenas quatro garrafas verdes, vazias...
Foi a última que deixei no pior dia, sim.
Não há gosto nem cheiro aqui. Suspeitos.

E corre de melancolia um licor na menina.
Os versos ficam mais largos quando penetro;
Penetro sentimentos com ou sem uniforme.
Lembro que hoje esperança não mais em mim.

E é mais um poema caduco de felicidade.
Caduco de meu penar eunuco
Triste de algo que vai e me amola,
É poema para não se ler na sua volta...

By Camila Passatuto

sábado, 11 de dezembro de 2010

Das contas não havidas

Reparei nas pernas torneadas, no sorriso amplo, nos cabelos longos...
Ela reparou no olhar, em puro descaso com o pudor, observou minha face enrubescendo após mais um gole quente de uma bebida qualquer.
Eu não quis mais olhar, ela queria mais olhares.
Acompanhou-me com seus passos curtos até a porta do bar, laçou o cós da minha calça  com os frágeis dedos.
Voltei meu corpo para aquele corpo pequeno, moreno, quente de algo que também me queimava.
Não havia som ambiente.
Apenas minha respiração... Sempre cansada.
Seu olhar brilhava, observando-me como quem venera algo grandioso.
Tudo ali era jogoso demais. Eu precisava ecoar externamente um ato que meu desejo lançava cá dentro e ela apenas precisava ficar na ponta dos pés para alcançar meus lábios...
Não havia som latente.
Só o passear de línguas, o cruzar de mãos, o magnetismo do meu com o dela.
Reparei nas pernas torneadas abraçando as minhas, no sorriso amplo censurando minhas mordidas, nos longos cabelos jogados sobre meu corpo.
Ela reparou meu tórax enrubescido por suas unhas... O relógio marcando dez horas.
Eu não quis saber quantos anos. Eu esqueceria o endereço; o nome eu guardaria para alguma poesia.
Ela abriu um uísque fuleiro. Eu enchi o copo para sanar o que do corpo esvaziou na noite passada.
E ali não havia nenhum suposto até mais.
Só restaria em mim um simples e breve conto, das contas não havidas, que passei com aquela fêmeamenina.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Canto Virgem, Ewá.


Ewá, Ewá, Ewá,

Mostre aos olhos o que longe há
Para além da pedreira
Para além da virgem mata
Para onde o vento forte levar.

Quebra onda, Beira-mar
É mais para lá do além
Da lama da Nanã
Do dendê de Iansã.

Ewá, revele ao poeta
A mansidão de criar
A fertilidade de renascer
Mostre, mãe, o amor florescer.

Não vejo algo...
Nas águas claras,
Nas ervas amargas,
Rainha do oráculo.

Ewá, minha mãe,
Mostre o que os olhos
Não mais podem
Mesmo se alma morrer.

Ao fim de tudo ver,
Leve-me, minha mãe,
Ao rei das palhas,
Para descanso de tanta visão.

Ao novo tudo parecer,
Leve-me, Ewá,
Ao rei Oxumare
Para eu lá das cores, novamente tudo ver...

By Camila Passatuto

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Na caixinha de sapato.

Hoje acordei alguém
Não importa quem
Eu sei que olho abriu.

Saiu daqui, da alma,
Foi no grito que rugiu.
Libertei alguém
Talvez eu, você... Ninguém.

Uma fêmea no canto
Disse, sem medo,
Que no meu peito
Havia padrões fuleiros.

Hoje eu acordei
Não me preocupei
Liberdade é isso
Eu não resmunguei. (ei ei ei)

Estamos sós
É madrugada
Não há dinheiro
Nem os tais padrões mandingueiros.

Voa quitanda
Sabores poluídos
Lambe
Pode-se entulho.

Rompe que é
Não mais, é.
Largue-me
Solte-a.

Hoje reviro alguém
Que não (re) passou.
Juventude nova (nossa),
Liberdade aprende.

E finda poesia,
Interpreta como leve.
E hoje acordei mais urbano,
Mais fuleiro... mais alegre!

By Camila Passatuto

domingo, 7 de novembro de 2010

Conversa Sem Beira.

Com o passar dos anos, que não foram tantos, o universo moldou essa mente que aqui dedilha palavras que talvez não possam ser tão importantes quanto qualquer outra coisa.
Venho para murmurar que aprendi.
Aprendi comigo, com os outros, com o nada... Com o desaprender.
Tornei-me também. Mudei-me, mudaram-me e se mudaram de mim.
Com o passar de pesares, que não foram poucos, o universo chorou e sorriu comigo. Foi meu único e confiável, escudeiro e implacável amigo.
Ontem eu não sabia, hoje sei e disso mais dúvidas... Sei menos.
No passado a alma não era tão exilada e de hoje para o amanhã será mais alva.
Aprendi.
Os inimigos são os melhores para te crescer, para te vencer... As guerras nos tornam e contornam, cria e destrói trincheiras; no final o que era seu, mesmo em posse do imperialismo inimigo, sempre será seu... Se assim quiser.
Aprendi que somos todos bárbaros.
Sou feito de barbaridades; pequenos e médios desastres.
Aprendi que sorrir salva, lava e desmorona barreiras.
Foi com o passar de gente que eu descobri que todos passam para ir e para voltar. Vai e volta, tão depressa, tão devagar que quando o tempo vai ver... Goza. Desfruta da oportunidade de ser passageiro, oh, Tempo!
Hoje eu vejo pessoas se mesquinhando, já me mesquinhei um dia, hoje não mais. Prefiro aqui no meu canto, sem quase nada, contudo... Sem nada de penar depois.
Aprendi a não ter medo. Mesmo com muito receio, aprendi. Mesmo sofrendo, não sofri.
Aprendi que odiar é tão difícil. Gostar é tão amável. Aprendi que amar é sagrado.
Para o Amor um altar separado. Longe de tudo que por mim for profanado.
Com o passar dos anos, não tenho certeza se serão tantos, terei que aprender sem querer, caso for necessário. Terei que engolir saliva quente e escrever o que aqui na alma me repreende, ou não, ou talvez... Só sei que terei.
Talvez eu tenha que ensinar, mas que isso nunca seja necessário. Quero viver solto, preso, filho ou estrangeiro. Eu quero.
Caso eu tenha que ensinar, mesmo que seja um só conselho, aqui eu o deixo: Debaixo da cama que conforta seu mais belo sonho, há um sonho melhor, enfie sua cabeça no escuro e o viva, pobre mortal, entenda... Aprenda
By Camila Passatuto

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ode à Ode

Diga-me
Quais são minhas verdades
Não conheço uma, diga.

Verdade exterior existe.
A que mora em mim,
Duvido.

Choro só
Acho que não
Deve ser mais dó.

Necessidade
Palavra grande
Qual verdade a sua?

Diga, menina linda,
Será minha mentira?
Pura, serena, cativa.

Algum trocado
Esmolo garotos
Nada: é sua verdade.

Fico em dúvida
Não me sei
Quem me sabe?

Hoje sem trabalho
Amanhã em retalho
Depois me despacho.

Qual a verdade
Do mundo?
É a economia.

A verdade
Do povo
Deve ser esquizofrenia

A mentira
Do poeta
É sua ladainha.

Da musa
As pernas...
Essas verdades são minhas.

Diga-me
A real tristeza
A falsa nobreza

Calo-te
Sem moedas
E sem verdades...

Não te sei
Não me sabe

Acho que sou mentira
E tu és, supostamente,
Minha verdade.

By Camila Passatuto

domingo, 31 de outubro de 2010

Existência 2.2

Sou mulher
Feita de outras tantas por aí
Altas, baixas, brancas, calmas
Todas que passam e se deixam em mim.

Sou homem
Feito de tudo quanto eu posso ser feito
De aço, cobre, pedreira e mata virgem
Tudo que me deixa robusto e forte.

Sou a idade avançada
Sou a juventude que anda por aí tão cansada.
Sou mistério de senha
Sou o relógio de bolso que te demora.

Sou canto de sereia
E colares jogados ao pé da cama
Sou pecado
Sou fé que de noite a criança clama.

Sou fim de verso
Sou o silêncio após
Sou mulher, homem, bicho do mato
Deixo de ser quando não quero e sempre sou.

Sou mais quando acabo
E deixo um bater escasso
Um sorriso de lado
Sou quando me findo em seus lábios.

Sou pequena
Sou esbelto e grandioso
Sou macho sou fêmea
Sou poesia, sou poema.

By Camila Passatuto

sábado, 23 de outubro de 2010

Contém urânio*

Rezou mais uma prece.
Mais fé, mais súplica.
Quer o bem
E para isso tem que sofrer.

Destruição em massa
Modelando o típico
O ridículo de sempre.
Mais fé, mais estridente.

Decide um ou outro futuro
Que não seja o seu
Não faz arte, não faz nada
Tem fé, tem coragem e não é.

Lá fora, lutam por poder
Cá dentro, ele luta
Por poder ser menos
Por querer ter mais.

Que fé? Que paz?
Permaneceu virgem de atos
Na catedral de mármore podre
Não luta por amor, por nada.

Releu relatos, não entendeu.
Pilatos, Jesus
E um cristo inventado.
Quem é? Quem eleger?

Ao sangue um dia jorrado.
Bebeu um gole de piedade
Véu sobre a consciência
Urna de prazeres em dormência.

Rezou mais uma prece.
Com dores dispares
Alívio não terá, sabe bem.
Mas insiste e me bate.

Grita em voz humilhada.
- Poeta, filho da puta,
Livre seus versos
Da escolha absurda.

Implorou como jovem no cio
Não sei se depois rezou...
Leu dossiês, reviu a matriz.
Era dia de eleger um nobre pingüim.

By Camila Passatuto

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Solidão em Sete Atos

Não falo de solidão... Porque dela, assim em tal ato, tiro a essência do existir.
É o que faço com a musa, com os temas e esquemas sutis que rondam minh’alma.
Poeta é sugador de existência.
Doa o que dói... Às vezes uma paz a mais.

Solidão que tão minha se tornou.
Hoje na varanda nem os fantasmas acompanham minha inanição poética.
O vento que não corre, faz pairar mais solidão em meus poros, o calor de estar só me envolve. Não reclamo, não lamento...
Eu sinto a paz que desenvolve meu eterno crescer de rebento.

Não sinto falta do que é ausente.
Solidão não é isso, solidão ainda deve ser definida poeticamente.
Se já se fez em algum tempo, pois bem, renovo definição, tão alegremente que irão morder os tornozelos e salpicar palavrinhas... Essa aí não é mulher sozinha.

Cai tristeza por onde caiu.
Cadê o pai, a mãe, os irmãos e irmãs?
Cadê a infância de pé sujo, de lenha e fogueira... Cadê o meu passado que não deve nem cobra...
Só de lembranças, de família
Do que fui quando criança.
Nego as dores e sou homens das mulheres e delas são as flores.
Cadê o colo de meu avô, seu chapéu, seu baralho... Nosso eterno corsário... Cadê?
Estou só de passado.

Solidão enterra minhas mágoas.
Das traições, dos amigos que nunca provei,
Do andar sem andares ao meu lado,
Dos sorrir sem outras alegrias, tudo um grande vão descompassado.
Solitário, seguro de sua existência... Segue feliz
Sabe o que não pertence
Sabe-se tão
Sabe-se só.

Estou só com o poema mais lindo que já fiz
Ele une almas
A minha com a sua
Ele une traumas.
Estou só com as músicas que ouvíamos.
Elas unem nossas melodias sussurradas durante o dia.
O meu grave e seu agudo.
Estou só, estou mudo...
Você colada n’alma,
Só assim enfrento o mundo.

Meus fantasmas esqueceram
De deixar um lembrete.
Que quando eu envelhecesse
Sairiam para bailar
Talvez comemorar meu encerramento,
Talvez por desacato ao meu viver.
Meus fantasmas esqueceram
Que não é tão feliz aquele
Que está só
Quando vai morrer.

By Camila Passatuto

sábado, 2 de outubro de 2010

Prece Poética

Deus, explica essa desavença de razão.
Como pode alguém ser tão triste e feliz ao mesmo tempo?
Deus, explica essa minha falta de emoção.
Para outros jardins não tenho mudas suficientes a florescer.
Meu Deus...
Alavanca em mim o discernir eterno do amor
A força que me faz calar diante de tanto esplendor.

Deus, meu camarada, diz a ela que não pode fazer invernada
Em sonhos que tão quentes quanto os meus, nada ascende...
Vivo em pecado com a verdade; toda sagrada vez que calo.
Calo em mim apenas palavras, meu camarada, grito a alma.

Deus das regras sem condutas,
Exige de mim o conter,
A fuga voraz. Onde, dela posso me esconder?
Diz a ela que não dá mais
Tive sonhos tempos atrás
Eu corria e impedia...
Hoje vivo a angústia que provia.

Deus, as madrugadas são santas nuas
Envolvem qualquer perdido
Como eu que vago em pensamento pelas ruas
Livrai-me das rosas sem pétalas
Dos vinhos que invadem em mim outro ser.
Deus, explica para mim
Qual o sentido de tudo nunca ter fim
Vivo como homem eterno
Esperando o que é ação em meu caderno.

Deus, diz a ela que na cidade as pessoas não existem
Que estou só entre os muitos sozinhos, cegos e mendigos...
Que arranjo um trocado com os poemas que faço, refaço.
Diz a ela que sobrevivo rindo dos pássaros da praça
Que mesmo com asas
Não conseguem se libertar de suas próprias almas.
Diz a ela que sou triste
Que sou pedinte
Que sou ouvinte dos homens que não tem o que falar.

Deus, onde está sua presença a não ser em todo lugar?
Então, diz a ela que sou teu
Diz que quando sentir saudade
É para pulmonar.
Porque tu és ar
Diz a ela que estou em ti
Que quando ela quiser ter a mim é só respirar.

By Camila Passatuto

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Na conta

Eu deveria ter descoberto nosso futuro nas praças.
E mais versos compostos de nossas travessuras, sim.
Dias e noites com mais linhas tênues dos corpos, da gente.
Eu deveria ter sido o jornal daquela manhã, eu deveria...

No sofá, tomou alguma decisão sem consultar, ali está.
Falou que eu poderia não ter tais destinos, outros abrigos.
Eu é que deveria não assumir e sumir; negou a renuncia.
Eu deveria ter gravado seus solos imaginários, hoje só...

As raivas sem motivos, eu deveria ter dado alguns...
Para os beijos esquisitos, deveria ter invento mais um.
O abraço que anula todo o resto; o meu gosto repleto...
Eu deveria ter colado nossos laços em pacotes maiores.

Eu deveria ter logado nossa senha e queimado os papéis.
Eu deveria ter cuidado melhor de seus sonhos, meus também.
Eu deveria ter bebido mais de ti, ter sido o pra sempre Romeu.
Eu deveria ter sido mais épico, mais romântico... mais Orfeu.

By Camila Passatuto

domingo, 12 de setembro de 2010

Ideia

Um dia, quando andava pela rua, percebi uma ideia batendo na porta que eu nunca abria. Como o dia estava frio demais para qualquer coisa ficar do lado de fora... Deixei entrar.
Cheia de si, instalou-se em mim. Gritou como fêmea raivosa e exigiu em claro som algo que não pude negar. Ela recitou um pedido que segue abaixo:

Ora, minha menina,
O tempo atrasa
Quando não percebemos,
Quando não fazemos nada.
Corre para seu papel,
O principal.
E tome posse da pena
Do tinteiro...
Faça de mim, algo
Que não salve só sua alma,
Mas o mundo inteiro.

Após essas palavras, tornei-me o que sou.
Alma vaga e mente liberta.
Alguns até dizem:
Essa é poeta.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Espere, poeta...

Passei o dia todo com uma dor crônica. O tórax, que antes, tão inútil para as minhas atenções, hoje foi ator principal em todas as cenas. Ele dói, contorce minha face, escorre minhas lágrimas, dificulta minha respiração, endurece meu sorriso e faz uma tristeza pairar no contexto que abraça essa pobre criatura que em busca de acalanto se reportou às letras, aos garranchos azuis, às folhas tortas e mortas...
Dias assim, de dor intensa, costumam ser produtivos para almas que se deliciam no desabor da culminância de vida. Dias assim transcendem.
Para completar minha mórbida vontade de criar, o cinza do céu ficou mais baixo, pude visualizar todos os fantasmas redentores, mais conhecidos como anjos. Esses não entenderam a face rancorosa que eu, sem a arte a encenação, atuava serenamente.
Em algum momento vibrei fraquinho o som que explica: “eu sinto dor, meus anjos, eu sinto a dor que destrói sorrisos.”
Após apreciarem a melodia suave, entreolharam-se, doaram risadas e foram embora, deixando apenas mais dor em meu peito. Anjos são isso. Deveria ter compreendido que eles nos salvam apenas com esperanças, só que hoje eu decidi não esperar por nada.
Mover não seria a solução, remover muito menos... Passei o dia na inquietude que assombra qualquer enfermo.
Quis escrever poesia, mas logo lembrei que não podia... Isso só iria piorar a dor que se por hora era física depois dos versos seria dor de alquimia...
Não pude abusar da musa, estava precisando era de seus abusos em carinhos e cura em toques... Não quis mais escrever poesia, e isso não soou como regalia... Poeta quer verso que finda toda e qualquer dor, poeta quer viver verso para versar vivendo... Só que hoje fui mais além, neguei o que clamava aqui por dentro... Queria criar, mas não era verso que estava por nascer.
Percorri todos os cômodos da casa, cada um com suas lembranças em minhas paredes, eles se viram em mim, tatuados com meus sentimentos... Essa era a casa que me criou; esse o esconderijo que de tempos em tempos me injuriou.
Poderia criar um conto contando o que fui aqui, o que deixei de ser e o que eu quisesse contar, inventar mais sonhos e finalizar com esperança, só que lembrei que hoje eu não estava esperando mais nada... Resolvi deitar.
Meu cobertor, se ele pudesse dizer o quanto de amor por debaixo dele eu derramei... O quanto de felicidade eu trouxe para cá, nessa cabana que desde criança me abriga o sono. Viu-me crescer, sonhar, chorar, desejar e amar. Eu poderia escrever um livro com tudo o que ele viveu comigo, mas as lembranças machucam quando nelas está o passado de quem deveria ser presente e futuro.
Decidi descansar.
A dor sempre mais intensa com a calma do passar de cada segundo.
Respiração fraca, a glote quase fechada... Não reparei no que estava acontecendo, pois sonhava em relento, imaginava o meu amor aqui do lado, acariciando, confortando-me com um afago... Seus dedos virando meus cabelos e seus lábios na ponta de meu ouvido dizendo: “Cuidado, mas calma, estou aqui”. E meu sorriso nascendo esperançoso, cheio de vida, cheio do amor mais gostoso...
Respiração nula.
Glote totalmente fechada.
E não havia sorriso nem esperança, não havia musa ao lado de minha cama, porque hoje eu resolvi, por capricho de vida, ou de morte, não esperar por mais nada.

By Camila Passatuto

domingo, 5 de setembro de 2010

Desculpas de Poeta

Perdão ao leitor que leu e não gostou.

Não gostou de entender, compreende.

Não deleitou a possibilidade de criar.

Gritou: Ora! É tu, nobre, o autor...


Perdão ao mau entendedor de versos.

Que passou a profanar minh’alma,

Por não mais escapar das armadilhas.

Armadilhas obstinadas ao entender.


Perdão ao sonhador que se viu preso.

Preso em proposta de liberdade, livre.

Inquinado pelos sons do poema.

Sonhou ateu, sonhou plebeu...


Perdão às musas que não inspiraram.

Passaram cegas por meus olhos, assim.

Alvas demais, puras de vontade, pobres.

Sem cortes, sem versos. Ninfas egípcias.


Perdão aos sentimentos ocultos, sóbrios.

Que apenas em entrelinhas vivem, rainhas.

Comeram acentuadas dispersões do leitor,

Culpa do poeta que claro som não versa.


Perdão ao universo incorreto que consome.

Consome tudo que mistifico em almas...

Crio outros lugares, outros perdões,

Outros fins, como esse que se compõe.


By Camila Passatuto

sábado, 4 de setembro de 2010

Ao corpo.

Você está cansado, velho amigo.
Não respira satisfeito,
Não sorri,
Não desfalece no leito.

Todas as noites são claras
Em claro tormento.
A mente caiu.
O Espírito nem sempre eleva.

Você faz força para sorrir,
Você luta por esperança,
Você me pertence,
Corpo doente que balança.

Move o telégrafo dos prazeres
E nenhuma palavra de volta...
Você está cansado, velho amigo.
Tantos anos se decepcionando, cuidado.

As cenas que representam fortalezas.
Harmonia farsante,
Angustia desde a placenta, eu caí.
O Espírito nem sempre representa.

E você não pode mais caminhar.
As pernas tremem.
As mãos gelam, não sentem.
O peito dói, corpo balança.

Os dias que seriam de recuperação
Tornaram-se imersão.
Tempo vasto perdido.
Entre o clamar... O suplício.

Você pede ajuda, velho amigo.
Mas ocupados demais
Mas desajeitados demais.
Ninguém tem tempo, há volta...

Mais noites em claro penar.
Busca de algo.
Perdido entre almas,
Almas perdidas que não se acham.

E você chora, velho amigo.
Sou de ti inquilino.
Sou alma, tu me desde abrigo
E choro contigo; sofro a cada gemido.

E implora abrigo
E foge
E afasta
E se torna mais frio, esquisito.
.............................................................
N’alguma noite por vir
Na tristeza irá surgir
O desejo realizado
O corpo da alma libertado.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Fracasso Moderno.

Permaneço imparcial,

Mas o que são parcelas?

O cartão venceu

Nas contas exatas.


O telefone toca,

Mais uma

Cobrança.

Exigência nossa.


Permaneço imparcial.

Os passos longos.

O corpo se movendo,

Cálido.


No chão mais um menino.

Permaneço espacial, olho.

Moedas, moelas... Tanto faz.

Ofereço de carinho breve.


Voltei para casa.

Juntei alguma riqueza,

Paguei as parcelas.

Mas falta o amor em minha mesa.


Acordo atordoado

Atrasei, acordei.

O mundo cinza

Exige polidez.


Hora do trabalho

Do que vale meu centavo?

Permaneço mais escravo.

Moedas, moelas... Escasso.


No chão mais um menino

Permaneço mais cansado

Ofereço de carinho breve

A rotina de vassalo.


Em casa o banho quente,

Masturbação não contente.

As contas, ponta de lápis,

Dias sem te ver, fico exigente.


O cartão venceu

Nas contas exatas.

No natal mando outro

Vai ler quando durmo nas escadas.


Da sacada de princesa

O ouro de mendigo

A realidade desse pobre

É cada verso que aqui digo.


Sem dinheiro, sem sonhos.

A fortuna é rasa,

Forma limites...

Expulsou-me de casa.


Permaneço louco vadio,

Na porta de algum banco,

Deitado em tímido canto.

Quando passa, peço um mango.


Olha sem jeito, reconhece tal sujeito.

Os lábios são os mesmos, desejos.

Moeda é o que joga no chão, agradeço.

Oferece de valor breve o que um dia não tinha preço.



By Camila Passatuto

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Insônia Travestida

E tudo sente sua falta.
Até o sono que foge,
Até o espelho, engole.
Insatisfeito, releio...

A obra que faço,
No meio,
Pernas.
Esqueço.

Não há o descanso,
Olhar não morre.
Noite intensa.
Dormir não pode.

Configuro paixões,
Dores e noites.
Combino tempos,
Eternos e discretos.

E tudo sente sua falta.
Até a conta que vencer,
Até as unhas por fazer.
Mel escorre lágrima.

No trabalho tudo certo,
Na ilusão eu peco.
Não permito o sono,
Culpa do teu abandono.

Hoje jogado na rua,
Lamentado, escorado.
Escrevo para mim.
Sempre foi assim...

E tudo sente sua falta.
Mas é desculpa de poeta...
Para não dizer a verdade.
Que só minh'alma chora essa louca saudade.


By Camila Passatuto

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ele/Ela

"Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja,
Não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja."
Belchior


Caminhou tão depressa que fez do caminho longo algo banal para o relógio. Estava na hora, não sabia ao certo que hora era aquela que por entre mistérios revelados escondia sua importância. Não sabia de nada, dos motivos que o moviam, das trapaças que com delicadeza sem sentir tropeçava. Que sem sentir... Amarrava.

Era um dia qualquer, com um compromisso qualquer. Abriu a porta de madeira que rangia feito uma fêmea mal devorada, sentou no sofá pouco confortável e tratou de banhar o ambiente com seu despretensioso olhar. Nada viu. Nada que o levasse ao delírio da transcendência infantil de tempos atrás.

Chega à sala quem um dia foi imã. Saia justa, uma camisa social quadriculada e os pés abraçados por um par de pares distintos de meia.

Ele a fitou discretamente, olhou como quem reprovasse aquela beleza molambenta, aquele cabelo longo e negro, aquela atmosfera de inocência ninfomaníaca em que ela sempre o envolvia. Ele, em um suspiro sem carisma, esnobou aquela breve criatura, tão breve que vivia em alta freqüência em seus pensamentos, que passava o dia todo pulando nas lembranças.

Ela carinhosamente despercebeu o esforço que ele fazia para manter no chão todos os sentimentos sórdidos, hoje chamados assim, tempos antes eram sonhos.

Ele percebeu que as horas eram desiguais para ambos.

Para ele aquele momento era o único segundo após o fim. Fim de anos, fim de intermináveis meses, fim de dias sem ela. O fim dos sonhos. Do sonho de ser dois, um, tudo, nada...

Para ela aquele momento era mais um segundo que pedia outros segundos, esse tempo que ainda falta. Tempo de espera, tempo de apostas infundadas, impensadas...

Dos desejos mal ditos, eram-se.

Ela nada tinha para falar. E ele pensava que ia escutar...uma palavra qualquer, um aviso implicante, um estilo de rompimento verbalizado e oficial.

Ela nada tinha em palavras.

Ele desejava.

Ela era seu imã, não importava a situação. Não importava o que se tornavam a cada tristeza ou esquecimento.

No ato mais solitário ele rompeu o silêncio. Rugiu o ambiente quando levantou do sofá. Ela estremeceu, pois tudo estaria prestes a acontecer. Tudo, Tudo que nem imaginava o quê.

Ele sabia que não agüentaria mais uma de suas meninices, as provocações e acusações sem nexos e arreios.

Resolveu tomar a atitude. Certas atitudes queimam. Mas estava disposto a incendiar, e quem ou o quê fosse frágil, iria virar cinza, cinza.

Ela estava disposta a gelar. O estomago já soprava os ventos nórdicos.

Ela, apenas, queria uma brisa que não ferisse a paisagem intocada do passado que, sem ele saber, ela o guardara intacto in memorian e no corpo e no quarto e na cama e nos versos que para ela eram dedicados e recitados por seus lábios toda noite, toda saudade, toda insanidade.

O ambiente daquele apartamento era de uma urbanização alarmante. Dois transeuntes prontos para se atropelarem. Uma placa de trânsito, roubada pelos dois nos tempos de amoras enlatadas, exposta um tanto torta na parede de textura um tanto grunge, é que assistia aquele quase engarrafamento de nada, de tudo.

Ele com a mão direita no bolso e a esquerda coçando a barba, parecia o mais centrado dos dois. Ela com a perna direita em cima do sofá, o corpo inclinado para ele de modo tímido e quase invisível, as mãos soltas, os seios firmes e algo mais a fazia ter um caráter despojado e dominador.

Mas qual dos dois iria ceder aos centímetros?

O medo de ambos de se machucarem. O medo do: não alheio, isso era contrastante, junto com a certeza da necessidade das infantis almas postas mais um vez em caminho comum.

Ela esperava o momento certo dele.

Ele esperava a certeza dela.

Eternamente o medo.

Eternamente aquele instante que não sabiam de nada, dos motivos que os moviam até aquilo, das trapaças do destino que com delicadeza sem sentir tropeçavam.

Que sem sentir se amarravam...

Qual dos dois?

Mas qual dos dois iria ceder aos centímetros?

Ele queria sonho, fechou os olhos.

Ela queria sonho, percebeu a recíproca antecipada daquele cara, que sempre antecipava, ejaculava nas preliminares, adivinhava suas dores e desejos, chegava em primeiro lugar em sua alma, até mesmo quando atrasava.

Eles queriam sonhar.

Eles queriam terminar aquele ato indeciso de desconhecidos... na cama, no café da manhã, na caricia após um murmuro, no torcer de nariz, nas brigas, no altar, nos filhos, nos problemas, no amor, nos problemas, em mais amor, na velhice, no cansaço, no orgulho, na felicidade, nas brigas, nos gozos, nos acidentes, nas sortes, na vida, na doação de suas mortes...

Mas ela esperava o momento certo dele.

E ele esperava a certeza dela...



By Camila Passatuto

sábado, 21 de agosto de 2010

Marinheiro

O mar; amaldiçoado mar.
Das ondas traiçoeiras,
Das mortes,
Das perdas.

Sua imensidão não me cativa,
Não emociona,
Não me convida,
Fala-te, sussurro infernal.

Mar que invade meus sonhos.
Faz-me afogar, mar que entra,
Mar que sai, mar que é tormenta.
Mar que só traz a vontade de chorar.

Seus peixes não me alimentam,
Suas ondas só em quebra-peito.
Seu azul estonteia.
O que em ti reluz é alma fagueira

O mar que estranha,
Faz amores, ondeia paixões.
O mar que repete o linguajar, chuá
É o mesmo mar que me faz chorar...

Amaldiçoada vastidão em ti.
Seduz quem pode,
Leva para longe, leva.
Esconde meus botes.

Não navego, não velejo,
Não viajo em tua bravura.
Teu mistério se revela
Cúmplice de minha sepultura...

By Camila Passatuto

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Rei

Em meio aos bosques, procuro e não sei por onde anda a doce felicidade. Em mim, o que move, remove e comove quem vê, é apenas um vento frio que ocupa meu ser em dias constantes de penar.

O sorriso que trago, no estreito rosto, é singelo mistério, ninguém percebe...

E por entre apostas majestosas o meu corpo se lança, o riso sai fácil, a bebida entra lenta e amarga como a velocidade que me esquenta. Tudo tão irreal.

Nunca fingi tão bem.

Depois que partiste me tornei algo ruim, ruim para mim, ruim para a minha sóbria verdade; hoje sou de gosto peculiar para quem deseja provar e cuspir, e redimir em si a vontade do que é bom.

Nada está bem aqui. Não queria que soubesse disso. Não queria que imaginasse a minha dor, pois se imaginar corretamente vai sofrer parte do que sofro.

Sofrimento seu aumenta o meu. Desfaz o querer saber em ti.

Em meus aposentos, no meio da gélida madrugada, que conforta os sentimentos dos espectros amigos, esses que percorrem minha mente, meu corpo, minha sanidade doente, minha luxuria fétida, meu humilde presente caído em forças de si... É onde o sono tem medo e foge, é quando olho para dentro e vejo ruínas, lavas borbulhando, seres clamando por compaixão, lágrimas que em contato com o magma faz rocha em meu chão.

Sou isso, louco monstro da torre em transmutação, sem rumo e não só perdido, mas sim desviado a cada insensato torpor de tristeza.

É uma perda constante, sou eu navegante...

Não sei se imploro ajuda, não sei de nada...

Comigo, o sentido do futuro, não anda mais... É minha farsa tentando me convencer, é meu sujo orgulho tentando, de mim, tudo esconder.

Construí esse castelo de proporções amigáveis e com bases sólidas. O governo, que aqui regia, era sincero, com soldados armados de fidelidade e coragem.

Eu ainda possuo o meu reino, os papéis, as dívidas, as guerras... Eu ainda tenho tudo, ainda administro a província abandonada.

Eu ainda sou rei. Ainda decreto amor por aí. Eu ainda não percebi que o conto feliz da Idade Média não é mais aqui...


By Camila Passatuto