quarta-feira, 7 de março de 2012

Carta Pedido de Castanho César Preto


Seus cavalos avançam nossas terras, pisam nossas flores e matam nossas crianças. Suas lanças invadem nossos crânios ocos e suas risadas embalam o cortejo das almas ao ínfimo de universo em azul.

Após o vermelho de homem, o fogo dança em luxúria de ser sobre o que foi nosso lar e nossa praça. Os cercos de inocência que os velhos já jaziam em tardes sem pássaros... Daquilo vocês beberam em após de nós, com a saliva doce e os gemidos de pesares vultuosos.
Suas mãos imperam nossas certidões e decorrem sobre nosso pequeno legado de sociedade; suas velhas machucam nossa terra boa com o fino de seus sobressaltos de meninas iaiás sem as vírgulas de um macho em seus seios mal feitos.

Estamos chão abaixo, apenas em capricho de papéis ocorrido em sala qualquer, em bairro qualquer, em poder qualquer de cegos mandamentos sistemáticos e alheios à nossa simples presença de vida amorosa com a paz de ser gente de pé cascudo e de pele frita pelo rei Rá que tanto do outro lado do mundo olhou por irmãos de Egito. Estamos cova rasa de muitos corpos, estamos ladainhas sem fim na canoa de Hades, alugadas com pressa e sem prazo de entrega.

Senhorzinho, só venho aqui, de mau escrita e boa vontade, falar nessa carta que podia ser menos doído para meu povo dengoso ao pôr do sol; Senhorzinho, da próxima vez rabisca a ignorância em crânio de Senhorzinho e se doer muito, não faça não, por favor.

By Camila Passatuto

sexta-feira, 2 de março de 2012

Sem concreto

Som absurdo
Cobre
O ar que relata.

Hematoma
Veterano-refém
Das ilhas artificiais.

Pertence elemento
Em caos materno
Dê e pare, desaconselho.

Rima fantasma
Esmaga e trata
De boas às poucas palavras.

By Camila Passatuto

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Pasquim Invertido

Permanece como uma parte de corpo cansado; e eu acrescento sabores ideológicos sobre o ar fraco que me sustenta ao leste de algum pensamento.
A platéia com lanças de borracha, grossa ao seu modo fino, lê minha alma de forma errada e aplaude o que não entende e critica o que não prova. 
Eu subo sem ceia na barriga, com a cabeça em espelho de coração... No final é o resto de cidade que consola colo vazio.
E estamos longe do prazer de ser sinceridade avoando. Beijo na testa e um riso triste demais e uma pele além demais e um licor cheio de ais.
Permanece uma parte do começo no fim... E os que querem poesia; faz de palavras cruas a janta de hipócritas exibicionistas, pois bem, amados pontilhados de literatura, cá estou do outro lado da porta, dando adeus à sala de vozes falhas de querelas contra as pautas, cá me vou, com a gramática sem pé na cabeça e o sexo-cachoeira; pois sou a parte ruim do verso da vida, amargo que te abusa a careta... Eu sou a nuvem que foge do deserto e se esquece algodão em boca de pequeno.
A platéia vai sorrir e olhar... Cá estamos nus e debochados, verdadeiros e anões de moedas de ouro. Estamos na forma descritiva de vida submersa a Deus.
Estamos poesia-puta, conto-sonso, crônica-paulista e romance-sertão. E eu estou, meio sem assim e a desmerecer do insolente breve descansar de atenção.

By Camila Passatuto

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Sonhador, amém.

Você aposta o último gole em despencar de quasares, liberta a angústia de sorrir e delira diante, ignora logo após, enfeita sua criança com o pior laço de festa... Você é profundeza rasa e sem pedidos concede e sem palavras (vírgula) versa o inabitável vale das almas comprimidas pelos fatos modernos (ponto)

Você se torna o fósforo que projetou ao tudo de espaço... E as mãos descrevem do jeito que querem o desejar de suas pernas. Já não mais dono da tinta que conta (ponto e vírgula) e corre pelas pernas das secundárias, se esconde medroso, sem pontos e subordinações quânticas, estupra uma por uma... Você perde no jogo do sozinho e atrás do porrete inflamado de poder, você relembra o escritório úmido, a meia luz, os óculos mancos, as fotos nuas, as poesias suas, os animais soltos... A justiça masturbada pela mão de seu filho mais novo e o fecundo dia que se abre com o cheiro de fumaça ruim e cabeça boa (três pontos)

Você aposta o último gole em despencar de quasares... Sonhador maldito (tiro).

By Camila Passatuto

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Dicionário 1945

Faz de ti a leitura nula
Que para o alvo:
Vapor em passo curto.

Escuta a não-natureza
Que finge
Por entre gente, entre, mente.

Desobedece o primeiro
O segundo
O terceiro poeta.

Deixe de gozar.
Deixa assim...
Sem vida o nosso querer.

E do império de grades
Desenhe na janela
A revoada necessária de moça morta.

Faz de ti música surda
E queira por risco:
O eterno que some.

By Camila Passatuto

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A busca

Ele espiou o receio e afastou a alma
Delicado que era, seduziu liberdade.
Sem permanecer, ficou, dos raros
Rompeu-se de governo... Alumiou.

Das estantes unidas pelo falso ar
Equilibrou seu destino nos livros
Era hora, era tempo e minuto.
Esqueceu perigo e de seda foi.

Das grades que impôs o mestre
Era denso apenas o mínimo
Pois ele voou
Por entre...
E se acabou.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Assassino 562


A saliva sob os olhos da vítima
É inverso destino oprimido
Enquadrado em feixes...
Alvo sorrateiro.

Descarna
Distante do nojo.
Abre-te prensado
Na vastidão de sorrir.

A infância decodificada
No romper de luz
Entre graves e agudos
Dos meios penitenciais.

Sistema de manco pensar
Liberta o demente
De olhos vendados
Em apostos de adjetivos cálidos.

Resta no começo
O fim de algum feitiço
Pranto eterno de mãe
E cego de paz no divã.

By Camila Passatuto

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Mudança

Pensei em viajar para a Colômbia e criar ervas daninhas em meus canteiros laterais, pagar as contas com as folhas amassadas que forram as gavetas...
Eu pensei em mudar meus ares, meus pais, a cor dos chinelos e meus lares.

Porque já fui tanta gente em tanta vida, que por olhar em espelhos de retrovisores inimigos, quero eu, em dois segundos ser cinco mentes que confirmam diferentes verdades... eu pensei em libertar as insônias do saber e perambular sem pernas pelo bosque de cimento queimado...

Mudar... Por que não? Pintar minha mulher com tinta lilás, retratá-la em minha moldura antiga, sem o gozo da preocupação de suas pernas abertas em cintilante desconforto de menina. Eu pensei em mudar de amigos, se esses existissem, mudaria de bairro, conheceria o sabor de novos pães e amanteigados...

Eu juro que pensei que o melhor seria metamorfose sintética de nós... pensei em mudar de Brasil, de São Paulo, de você e de mim, de Deus e de filhos, de drogas e bebidas, de putas e altares...

Sento ao pé da goiabeira, observo os túmulos tão sempre os mesmos, dos mesmos mortos incapazes...
E eu, meu amor, hoje pensei em mudar... Porque ainda, mesmo descalço de mundo, em mim... vida há.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

En chemin

Não foi o meu caminho torto, foram os meus pés - cansados ao tocar o mundo desde a primeira vez - que me guiaram por aí... Em tombos e voos sem voltas.
Minha juventude passou calada em gritos assustados de poeira; enquanto a estrada me corria, eu descansava garotas em mim e inventava o modo mítico de contar ao futuro o sentimento dos atos momentâneos que a vida esquece por ruelas sombrias.
Sonhei alto e cheguei às nuvens cedo demais, sem impostos de querer e cego daquilo que te revela.
Não foi o caminho torto que me levou ao penhasco dos verbetes e das viúvas excitadas... foram os meus sonhos controversos que sempre trouxe cá em minh’alma.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sem poesia, menino-cão?


Consomem a sanidade que te resta
Eles não sabem, não podem imaginar
Exigem poesia dos dedos
Ignoram a obra de seus lábios trêmulos.

Manifestos imaturos rasgam simplicidade.
O poder que paralisa e amedronta
Anula o ritmo dos poucos versos.
Você quer correr e latir sem aterros.

Contamos as sílabas de tua alma
Faltam métricas em seu coração.
E sozinho grita na solitária:
Sou poeta, matuto e ladrão.

Consomem o distinto de tua calma
E você, menino, deitado em pé...
Escorado nos ideias de paz e sangue
Suspira blues no cinza de horizonte.

No lavabo escorre o que sustentaria
Os livros, a prosa e corpo sem esquina.
Anularam quase tudo de lobo em ti
Restou apenas o que é poesia.

By Camila Passatuto

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sem primavera e cigarros, esse ano (Parte I)

O suor é o que banha meu leito e o copo vazio decora minha vontade. Hoje, durante a tarde, um telefonema rompeu minha só-cidade e me lembrou das dívidas superficiais que deixamos mundo afora. Após o oposto do silêncio anterior, atirei-me pelo corredor que liga a sala à cozinha, as caras falsas à fome mórbida... Deitado e observando o teto mofado, pude perceber que somos anulados pelo que realmente existe, se assim dermos conta disso.
O mofo no teto existe, se faz presente e escuro, presente e fedorento... Mas a poesia das coisas não se deixa existir assim, tão puta aos olhos. A poesia de um vestidinho florido é talvez um pau excitado, ou uma inspiração de regalo... não se sabe ao certo onde e o que se faz de engenho à poesia das coisas. Em que lugar o universo guarda a poesia do andar de um homem manco, ou a poesia do operário sem salário, ou a poesia dos falsos artistas... Quantas formas terá uma apenas?
E fico estirado no chão observando atentamente se daquele momento foge essa essência, ah, meu deus  - grito – e a poesia dos poemas? Resolvo esquecer como covarde, tento a água do filtro de barro, mas quem vence é a garrafa de Martini.
Reparo meu corpo tombado em alma, sempre mal ajeitado ao universo paralelamente unificado de ninfetas. Ah, quem souber em mim algo, deveria me ligar. O telefone ronca de inanição. E o lance da poesia não morreu naquele sujo e úmido chão de corredor.
Masturbar-se é tedioso demais e qualquer orifício quente e úmido custa minha simpatia forçada ou umas notas mal cobradas.
Deito no leito de morte do dia. Cama da salvação do que passou, modernos e interruptos sonos... por que insurgem as dúvidas e qual motivos de tais relatos? O suor é consequência da frieza em mim, calefação humana que sofro por ser minha própria inexistência.
E posso escutar o coração bater tímido junto ao meu que se petrificou, apaguei, mas aqui permaneço. Ninguém pode me escutar? Capricharam na madeira e nas coroas de flores. E mesmo assim aqui estou, insatisfeito com o que virá e com a curta vida que não passou.

Sempre me cobraram algum livro que nunca fiz e histórias que nunca pude viver. A máquina de letras miúdas se nega a registrar minhas mentiras e do lado de fora de qualquer livraria haverá um filósofo doente, sujo e composto de éter. Ele irá questionar meus poemas e como pastor de butique ironizará meus contos e se o acaso permitir, uma pedra partirá a orelha esquerda do suposto Platão. Ninguém saberá de onde veio o arremesso, pois do céu apenas água, pois do chão apenas a submissa massagem dos pés e dos transeuntes apresados que correm relógios em si, pela Av. Paulista, não há pedras em suas mãos... apenas na composição das almas de alguns. E o filósofo gritará meu nome, jogará pragas em meus apostos mal colocados, em minhas criações não paridas e sobre os poemas com mais de três poesias cada, ele se ajoelhará, as mãos irão acariciar a orelha rubra do líquido amargo e nesse momento começa a acontecer minha breve história.
São cinco horas da manhã e tão jovem a data no calendário cristão que penso que a pedofilia de viver é um dos crimes mais cruéis à minha eterna fadiga. Na noite anterior não me sei do que fui, também não importa. Sento corcunda do lado esquerdo da cama, na mesa do computador alguns vestígios de poemas,  tento ler e a visão me castiga. Acho que era sobre política, meninas e a falsa realidade do futuro paulista.
Rimar talvez fosse necessário, mas o momento é de versos largos e peso sólido sobre palavras já conhecidas por todos. Já no trem,  reparo as pobres pessoas e suas histórias sem importância para quem busca algumas luzes londrinas e certas alucinações turcas. Estou perdido em egoísmo. E penso em paz, humanidade, amor, bebidas, salvação, imperialismo e tudo um monte de mais algumas coisas.
Estudar uma profissão é a minha principal insatisfação, não que eu queira apenas viver de literatura, mas me prostituir não vale tanto a pena para a felicidade surgir alva em minha fonte do prazer. Gosto dos verbetes e das formas, mas viver emocionando as pessoas... Não acredito tanto assim nos depoimentos cedidos aos meus textos. Sento em qualquer bar e bebo da minha bebida qualquer, esperando aquele momento em que o mundo comece a fazer parte do que sou e assim pensar que todos interpretam a vida como um poema contemporâneo.

By Camila Passatuto 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Maestria

Leia em artigos escuros as novidades.
Entenda, meu filho, o não e o talvez,
Pois de sim apenas o que de ti é, apenas.

Caminhe um pouco em cada lado da calçada
E manche os buracos dos fracos de preencher.
Assim entenderá um quase tudo daquilo que se pode.

Aproveite para observar o que resta na inexistência
Não siga  nem guie, não ouça... Gritar, inventar
Polemizar, desorganizar, gozar, poetar.

E coma o concreto, o moderno, o arcaico e o clássico.
Vomite o que é seu
E façam tomar.

Amém.

By Camila Passatuto

Encarnações Primárias

Plantação de café,
Sempre foi muito pouco.
A terra em tudo que toco,
Entre o verde, tudo prende.

A cidade grande,
Sempre grande demais.
A alma que intimista vai
Volta expansão de vácuo, menina.

Minha pele se salga
É o mar, maresia
É falta
E nado em nadas de ti, de mim.

Imensidão e simplicidade
É ar
Dizem que fim
Mas morte e liberdade, esse lugar, esse sim.

By Camila Passatuto

A análise de três séculos e meio

Ordem que inexiste em momento
Nasce como esperança milenar, garota.
Em olhos azuis que açoitam o quintal,
Cascas de frutas na mente, atemporal.

Se pele em modernidade longe arrepia,
O sorriso de trabalhador atrapalha
Talvez
O ruim do triste de sua mentira.

Momento em ordem que existe
Em sós de correntes, és maluco.
E literatura mancará
Sem entender a prece de eunuco.

Torres que choram fumaça; evolui.
Volto ao início de algum século.
O ferro faz cidade de amores
O carvão incinera destinos ou rumores.

E marchamos sobre os versos, jour.
Esperando gerundismo futuro
Em analise-pomar do passado
Em poesia finalizada, assustada em regalo.

By Camila Passatuto 

domingo, 20 de novembro de 2011

Minha nossa, vida.


Vivo para o adeus das mãos quentes
Das crianças redondas, dos dentes
Das moças fáceis, dos vestidos
Das praças em fumaças, dos peixes.

Vivo para o esquecimento global
Dos meus versos, dos seus restos
Dos antigos, dos que não nascem
Dos maus vistos, dos decassílabos.

Vivo para a morte precoce que ronda
De noite com frio, de medo infantil
De poeira em espirro, de ar em suspiro
De rima torta, de segurança em escolta.

Vivo para a literatura da verdade atual
Espero no alto da sacada o carteiro,
Com as verdades capitalistas sem receio,
Descanso ao rasgar a vitalidade da mentira.

E só assim, com liberdade ou não,
Vivo meio poeta
Morro inteiro poesia.

By Camila Passatuto