Biografia da Autora

Camila Passatuto nasceu em 1988, na cidade de São Paulo. Autora dos livros "Nequice: Lapso na Função Supressora" (Editora Penalux, 2018) e "TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada" (Editora Penalux, 2017).

Editora do projeto editorial O Último Leitor Morreu (conheça o projeto e as publicações). Escreve desde os 11 anos e começou a atuar nos meios digitais, com blogs de poesias e participações em diversas revistas e projetos literários, em 2007.

Contato: camila.passatuto@gmail.com


sexta-feira, 28 de março de 2014

Aquela Paz

Aquela dor
De inserir

Atropelou
A cidade.

Foi um caos
Um mal,

Um bem tão grande
Que os cegos
Eram a aurora
Do fim,

As meninas
Acordaram mais cedo,

Tocaram.

Aquela dor
Que desenhei
Por capricho

Findou o mal
Dos homens

Acabou
Com a birra do poder.

(Morri
E eles notaram).

Era tanto sangue
Dentro de mim

Que ao pular
Vivi, escorri 
um carinho.

Ora,
De um jeito
Sutil.

Supremo
De esquina

Acabei
Com toda a lástima
Que durante
Tanto 
Atormentava.

Fui, e sem saber,
Levei comigo
O esquecimento
Torto
Que salva a alma.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 26 de março de 2014

Cena 01

Aterrissei com atraso.

O atraso das dívidas
De um corpo ferido.

Pouco não posso.
Corre.
O exército exige.

(A papelada na cama)

Resolve
Em mim
Uma liberdade,
Dessas de domingo.

Sem ponto
E pronto

Minha guerra.
Essa que o uniforme
É pele,

Suave
um tiro em nós.

Aterrissei
Com as dúvidas
Do corpo,

Matei quantos foram,
Ali nasciam meus fantasmas.


- Afasta a rima barata -


Roga em mim
Essa paz que não é

Bate e mistura,
Feito mobília velha
Dentro do caminhão,
E leva tua loucura.

(De tarde
Ao acabar um poema
Relembro...)

Irmandade
Não conta estrofes,
Não contesta
A lírica que explode

E que louca adentra
Venda
Rompe
O centro de nossa testa.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 19 de março de 2014

Brasilis

Acabou a comida
Meus pés, minha paz.

Ao fundo
Homens marcham
Ao som de tristeza,

Morreu mais um
Esmero em suma
Vicinal calada.

O dono da vida,
De ouro de pedra,
Mandou ter cautela

Ministrar o medo
Encolher as revoltas
Matar as crianças
Estuprar tuas pernas.

Acabou a comida
Meu Deus, minha vida.

Ao mundo
Dançamos
Sem colete e liberdade

Soldados
De mente medular.

Socorre o verbo

Para libertar,
espancada,
A Nacional Castidade.

By Camila Passatuto

terça-feira, 18 de março de 2014

L.A.

Nosso amor, se nosso for,
Foi feito por Deus
Apenas para aperitivo

(E lembra?)

De tempo em tempo
Eu podia entornar
Teu verde em mim.

Crianças a descobrir

Tocamos as gramas,
As grades...

Inventamos a vida
De um tiro tão alto

Cada um pro seu lado.

(Converge)

Um tanto de essência
No querer
De repelir me ver.

.

Teu corpo maior
Meus olhos tristes
Tua pupila maior
Minh’alma triste.

E por outras vidas,
Nossa vida.

Sem preocupações.

Sempre
Um dia, eu sei,
Hora ou outra

Minha alma
Louca
Corre a tua

Por capricho
Do acaso
Minha boca tropeça a sua

E sem lacre
Te amo

E sem amor,
Ferino que sou,
Te solto
Na vida

Para o sabor
Cítrico
Escorrer
No ciclo
Dessa epopeia
Mal regida.

By Camila Passatuto


segunda-feira, 10 de março de 2014

Carpintaria

O frio que te faz
Não salva o que
Em pedra me esculpe.

Escorre, de moça,
Olhar de gaveta
Que ao cruzar meus nós
Repele
E volta tua atenção
Para o qualquer que não
Seja em mim tangente.

Suave,
Das rupturas,
Teus pêlos ouriçam
Só de pensar
Que penso por entre.

Dos lábios rachados
Brotam Je vois la vie em rose

De moça,
Recebo a bênção
Do sorriso

E tolo que sou
Danço em curvetas
Por toda cobiça
Do ventre

E sigo

By Camila Passatuto

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Desamor

Há tempos não vejo teus olhos,

Não sei o chá que te levanta,
Nem tenho tempo para isso.

(Desculpa)

Eu tenho é apenas uma ideia na cabeça

E você corre para uma praia qualquer,
Sangra tão bonito quando chora...

E passa mais uma hora.

Faz tempo que não pulo uma canção
Daquelas que te enche a alma

É que, meu bem,
Machuquei o coração
Em uma dessas ruas asfaltadas.

É que murchei o amor
Nessa estufa de tanto faz.

Faz tempo que não te amo,
Mas é que a vida passa torta

E não tenho tempo para mais nada
A não ser regar minhas dores
Mortas.


By Camila Passatuto

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

12/07/1882

Na guia a cabeça repousa após o encontro bruto,
Daqui posso ver o ritmo da cidade, tão alucinado,
Os pés bem calçados e as rodas a brincar de ir e vir.

Os olhos vermelhos de tanta vida a escorrer pela testa.
Meus olhos de menino travesso, que a avenida já não atravessa.

A polícia avisa que o caos está no chão,
atrapalhando o doce.

Vozes embalam minha mente, que dói aos poucos
Preta fica e dói mais um pouco.
Não pensar e sentir, rói em mim, também.

O corpo descansa,
enquanto eles pensam em remover,

Canto baixinho
Um ninar para minha alma.

Logo acaba
É um sopro que vai chegar
Logo vem
Um para sempre a ficar.

E daqui tudo é tão grande
Um choro amiúda meu instante
Talvez uma fêmea, talvez uma mãe, um amigo
Um doente que sente demais...

E antes que pudesse o poder
Tão antes do querer
As coisas acontecem, de um jeito chato
Sem poética
Sem rima

Embola uma revolta
Sem métrica
Sem mestre

E dessa vida insone,
Como se fosse fácil dormir,
Vamos embora

Assim,
Deitados no meio fio,
corpo franzino,
No meio do dia,
Que assiste, tolo,
Nossa ida.

By Camila Passatuto

Dose

Tantos poemas em um só,
Foi bobo um verso.

Levanta, corre,
Escorre na vida
O quanto puder.

(Manchas em algum Niemeyer.
Deixe o menino pintar, seu doutor,
Mais tarde a gente vê no que dá.)

Entoa um clássico
Bem aqui
Abaixo do meu samba

E na hora do amor
Não deixe o cinza da cidade
Tossir em nós
Alguma culpa.

Coloca, meu bem,
Mais calmante na pele morena
E overdose em mim, assim,
O quanto puder...


By Camila Passatuto

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Guia 9

Quero comer Pagu,
Sem remorso.

Tragar um dia quente,
Injetar felicidade

De palavras ociosas,
Farei o trabalho escravo.

O suor na tez
Migalha o dia do rei

E estarei a conceber
O verso final

Sem amor,
Com a pele alva
De mulher calada

Versarei aos loucos
Um dia a voar

Serei inteira
Nesta minha metade
De vida

Farei versos,
Versos de fornilho...

Logo após Pagu.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Das Guerras

Todo ensejo que orvalha da alma
Vem metralhar quem passa.

E olha...
Tua fé
Já não é.

Eu amiúdo
Versos
Para que não vá
Sem um doce (se quer).

Gritamos.

Sujo tua roupa
Com leite materno
Enrolo tua alma
À minha,

Nada por perto para se agarrar.

Filha,
O que sobra da coragem
São pequenas ervas daninhas,
Que nascem dos olhos
Dos que choram demais.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Morte na Orla

Vi a areia
Beijar teu dourado
De pele firme.

Desejei arames
Entre os nós
De tanta gente

Que faria
De mim
O teu outro lado
De mar.

Vi
Teu azul
Afogar
O pouco que sou

E quis,
Cheio de tom,
O grito de rasgar.

Vi
A onda levar.

Levar-te para longe,
Onde olhos sabem lágrimas
E sal
Lamenta a sede.

(Porejar
Não salva
Tua ida)

E o mar
(Sem doer muito)
Tomou-te por dentro,
Amor.

By Camila Passatuto

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Cartas

Paralelos,
A vida há de sangrar
Com a graça
Do fustigar em nós.

 - Já se pode
Cobrir a esteira
Com o corpo doente. -

(Vá).

“Leve a mensagem
Para além do perorar
E noite após noite
Esperaremos
O malquisto da vitória.”

Paralelos,
Tange a mim
A gula do entardecer
Atrasado

E com a alma canforada
Beijem meus lábios

Em pedidos
De dor à vida.


 By Camila Passatuto

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Rebouças

Nossa cabeça é uma Avenida Rebouças inteira
E se ladra, não percebe,
Morde mesmo sem ver.

Nosso velório é sempre antecipado
Passa túnel
Não escurece

Planta
Que pé amanhece.

Um metro
tanta buzina.

Nossa base-branca
Aliados
Qualquer um

E de paz
É tanta tinta.

Chamem os governantes
Vandalizamos sem querer

Preparem as grades e algemas

(Nos banhe em coerções)
Latimos
E trepamos uma vida.

Na última noite
Nascemos
E olha
Somos uma Rebouças inteira,
Chora.


By Camila Passatuto

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Penélope

Torpedeei
Em porto aberto
Teu navegar

Em ti
Soldei minha espera

A cada hora
Um fio caia

(Por tempo)

A cabeça
Era selva sem mata

O que era
Minha angústia
Em dois versos

Se amar
E não ser amada?

Era você,
Mofino em fragor,
Que esquecia
E nunca,
A mim,
Aludido, seco e em pó
Abrira a porta

E fizera chegada.

By Camila Passatuto

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Bala no Crânio

O som da morte
Soa quente.

Enquanto as senhoras
Depilam dignidade,
Ouço a dança de fogo
Por entre postes.

(Corre)

Lambe-lambes
Exibem
A baixeza do sorriso.

E queima
O doceiro da ida

O som
Cunhadio
É morte
Que chega

E apavora
Quem mais
Por perto
Não queria despedida.

(E se vai,
Fala:
É doceiro de vida.)

By Camila Passatuto



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Bombardeios

Os bombardeios seguem a rotina,
Destroem e constroem.

Não sei meu choro
Já faz tempo.

As ruas vastas...
Ainda.
E repouso
Minha desilusão
Pelo batente

Observo tanta ganância

Minhas mãos sujas
De amor

E o mundo acabando
Com o pouco do eu
Que me resta
Na janela.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Manger un Réactionnaire

Por onde saliva
É caminho obscuro
Se o faz
Por más línguas.

Ontem um corvo
Açoitou minha sorte
Levou em algemas
As revoltas.

E deles, tão pertencentes,
O descaso calcifica
A frívola passagem
Por essa vida.

O mundo geme
E pede
Em jarra
Nosso sangue.

E nada a alcovitar
A perfeição
Com as almas
Incisas em sistema
Errôneo.

Ladram as partituras
Falsas
Da valsa sem reação,

E gritam, filhotes,
à barricada:
"Homens
Que propendem à política
Matam sufocadas
As nobres poesias"

By Camila Passatuto

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Poesias para a Cabeça e a Língua


Um dia
Encontrei o nascer do sol
Cheirava cocaína
Pois tinha do mundo
Uma preguiça pontual.
-
A cidade
Me palpita na língua
Bem na ponta
Quase pronta à pular

A cidade
Me palpita na língua
Com um doce amargo
Lânguido a me fazer uivar;
-

E de tudo
Ah, Deus, que usura

De tudo isso
O tudo
É a poesia mais pura.

-
By Camila Passatuto



terça-feira, 22 de outubro de 2013

Êxodo

Não sei o que colocaram no meu uísque,
Todas as meninas resolveram chorar.

Tocaram, cada uma, três vezes a campainha
E eu as acolhi sem firulas; saudações.

Sentaram em dezenas no meu sofá.
O mundo lá fora desafina
Disse uma, outra, todas.

Os amores só brilham depois da meia-noite
Por ruelas em que teus olhos não podem,
Atravessando moléculas / desmitificando a paz.

A dor tem saudade constante
Em troca de abrigo
Uma poesia, um gole,
Tortuoso, viril destino.

Não sei o que colocaram na água do filtro
Parvo, percebi minhas virgens
Todas rabiscadas de batom.

E nos olhos,
Olha,
Acrílico.

Todas tão minhas
Soltas nas perguntas
Em romper

(entoa um cântico
Entre os dedos).

E como explicar o grito da vida
Em meio tanto gemido,
Unhas afiadas em meu rosto
Todas abusivas

Largo
Atiro
Mato.

Hoje, meu deus,
Todas as meninas resolveram chorar
Em mim.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Bainha de Calça

Por qual labirinto, tão mais longe, estreita teus passos
Se a mim nenhum recado de despedida me foi dado...

Qual fé tu levas no pesar das tardes sem o violão?

E quais mulheres por teus pés, a não ser a da lembrança
Do corpo que habitou na tentação de paz e eternidade...

E quais mulheres?

Ante as armas cheias de ferrugens, maléficas tentações,
Tua fuga não escapa o teu medo e mata a cada metro ido.

Os filhos escarranchados na porta da frente,
Banhados pelo sol do não aparecer...
Confrontam as lágrimas, a fome e a guerra.

Esperam por um pai que no lugar de vida
Oferece ao ninho, morte, pigarros
E suposta despedida.

Não há água entre as peles e os ossos
E por onde procuras redenção
Apenas poeira, conflito e secura no preto chão.

By Camila Passatuto