Biografia da Autora

Camila Passatuto nasceu em 1988, na cidade de São Paulo. Autora do livro "TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada" (Editora Penalux, 2017). Escreve desde os 11 anos e começou atuar nos meios digitais, com blogs e participações em revistas digitais, em 2007. Alguns trabalhos e participações: 2010, e-book “Apenas o Necessário”, co-autora da Antologia de micro contos reunidos pela Poesis, em parceria com a ETC Bienal, Fundação Volkswagen e Governo do Estado de São Paulo; 2012, Antologia “Nossa história, nossos autores (Editora Scortecci); 2013, escritora exposta na mostra de Twiteratura no Sesc Santo Amaro.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Poesias para a Cabeça e a Língua


Um dia
Encontrei o nascer do sol
Cheirava cocaína
Pois tinha do mundo
Uma preguiça pontual.
-
A cidade
Me palpita na língua
Bem na ponta
Quase pronta à pular

A cidade
Me palpita na língua
Com um doce amargo
Lânguido a me fazer uivar;
-

E de tudo
Ah, Deus, que usura

De tudo isso
O tudo
É a poesia mais pura.

-
By Camila Passatuto



terça-feira, 22 de outubro de 2013

Êxodo

Não sei o que colocaram no meu uísque,
Todas as meninas resolveram chorar.

Tocaram, cada uma, três vezes a campainha
E eu as acolhi sem firulas; saudações.

Sentaram em dezenas no meu sofá.
O mundo lá fora desafina
Disse uma, outra, todas.

Os amores só brilham depois da meia-noite
Por ruelas em que teus olhos não podem,
Atravessando moléculas / desmitificando a paz.

A dor tem saudade constante
Em troca de abrigo
Uma poesia, um gole,
Tortuoso, viril destino.

Não sei o que colocaram na água do filtro
Parvo, percebi minhas virgens
Todas rabiscadas de batom.

E nos olhos,
Olha,
Acrílico.

Todas tão minhas
Soltas nas perguntas
Em romper

(entoa um cântico
Entre os dedos).

E como explicar o grito da vida
Em meio tanto gemido,
Unhas afiadas em meu rosto
Todas abusivas

Largo
Atiro
Mato.

Hoje, meu deus,
Todas as meninas resolveram chorar
Em mim.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Bainha de Calça

Por qual labirinto, tão mais longe, estreita teus passos
Se a mim nenhum recado de despedida me foi dado...

Qual fé tu levas no pesar das tardes sem o violão?

E quais mulheres por teus pés, a não ser a da lembrança
Do corpo que habitou na tentação de paz e eternidade...

E quais mulheres?

Ante as armas cheias de ferrugens, maléficas tentações,
Tua fuga não escapa o teu medo e mata a cada metro ido.

Os filhos escarranchados na porta da frente,
Banhados pelo sol do não aparecer...
Confrontam as lágrimas, a fome e a guerra.

Esperam por um pai que no lugar de vida
Oferece ao ninho, morte, pigarros
E suposta despedida.

Não há água entre as peles e os ossos
E por onde procuras redenção
Apenas poeira, conflito e secura no preto chão.

By Camila Passatuto

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Estou a pé

Estou a pé,
Estou em pé de guerra.

Alguém grita: o chinelo dos meus dias desgastou,
Sobrou
As micoses das não conquistas.

Da janela pisca-pisca
 Tricota e liga a TV
Talvez um jornal para chorar ao ler.

Tantos dos meus
Sujos de tinta
Pelos cantos
Mancharam a cidade, a província.

Cada passo uma guerrilha
Tanto faz a sua estima
No final deve haver recompensa
Pois tanta juventude
Entre aspas, uma hora explode
E não sobra nem se quer as reticências.

Um dia a arte remove
Toda incumbência mal cedida
Da vida que fomos soldados do contra.

Nossa arma semeou cabeças,
Nossas mãos assinaram cartas de amor,

Nossa batalha é daquelas
Que nunca permitira
Nosso corpo sentar
E dizer que acabou.

By Camila Passatuto


Infante Moral

Eu recuso o tratado que o mundo oferece
Quero meu próprio tormento
Com os ventos que minha mente reproduz.

Paz. Edifico, desmoralizo, 
Não adquiro sua cruz.

E o que você julga eterno
Na minha vida perece,
Muita lei e muita regra.

Olha o cheiro da liberdade...

Tem gente que até esquece.

Empurram um sofá e a arte de trena.
Vão medir minha letra
E criticar o poema.

Esqueci o clássico
O marginal
O cubismo em poesia

Não pude lembrar
Já que alienaram
Minha vontade,
Por pura hipocrisia.

(Quero mais esquina)

Eu confundia as letras
Gritava tudo errado
Era o feio certo
Mas entoava meu passado.

Hoje o mundo me concertou
Na falha da perfeição
E tento a cada brisa
Voltar à pureza daquela
Vadia claudicação.

By Camila Passatuto