Biografia da Autora

Camila Passatuto nasceu em 1988, na cidade de São Paulo. Escreve desde os 11 anos e começou atuar nos meios digitais, com blogs e participações em revistas digitais, em 2007. Alguns trabalhos e participações: 2010, e-book “Apenas o Necessário”, co-autora da Antologia de micro contos reunidos pela Poesis, em parceria com a ETC Bienal, Fundação Volkswagen e Governo do Estado de São Paulo; 2012, Antologia “Nossa história, nossos autores (Editora Scortecci); 2013, escritora exposta na mostra de Twiteratura no Sesc Santo Amaro.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Mudança

Pensei em viajar para a Colômbia e criar ervas daninhas em meus canteiros laterais, pagar as contas com as folhas amassadas que forram as gavetas...
Eu pensei em mudar meus ares, meus pais, a cor dos chinelos e meus lares.

Porque já fui tanta gente em tanta vida, que por olhar em espelhos de retrovisores inimigos, quero eu, em dois segundos ser cinco mentes que confirmam diferentes verdades... eu pensei em libertar as insônias do saber e perambular sem pernas pelo bosque de cimento queimado...

Mudar... Por que não? Pintar minha mulher com tinta lilás, retratá-la em minha moldura antiga, sem o gozo da preocupação de suas pernas abertas em cintilante desconforto de menina. Eu pensei em mudar de amigos, se esses existissem, mudaria de bairro, conheceria o sabor de novos pães e amanteigados...

Eu juro que pensei que o melhor seria metamorfose sintética de nós... pensei em mudar de Brasil, de São Paulo, de você e de mim, de Deus e de filhos, de drogas e bebidas, de putas e altares...

Sento ao pé da goiabeira, observo os túmulos tão sempre os mesmos, dos mesmos mortos incapazes...
E eu, meu amor, hoje pensei em mudar... Porque ainda, mesmo descalço de mundo, em mim... vida há.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

En chemin

Não foi o meu caminho torto, foram os meus pés - cansados ao tocar o mundo desde a primeira vez - que me guiaram por aí... Em tombos e voos sem voltas.
Minha juventude passou calada em gritos assustados de poeira; enquanto a estrada me corria, eu descansava garotas em mim e inventava o modo mítico de contar ao futuro o sentimento dos atos momentâneos que a vida esquece por ruelas sombrias.
Sonhei alto e cheguei às nuvens cedo demais, sem impostos de querer e cego daquilo que te revela.
Não foi o caminho torto que me levou ao penhasco dos verbetes e das viúvas excitadas... foram os meus sonhos controversos que sempre trouxe cá em minh’alma.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sem poesia, menino-cão?


Consomem a sanidade que te resta
Eles não sabem, não podem imaginar
Exigem poesia dos dedos
Ignoram a obra de seus lábios trêmulos.

Manifestos imaturos rasgam simplicidade.
O poder que paralisa e amedronta
Anula o ritmo dos poucos versos.
Você quer correr e latir sem aterros.

Contamos as sílabas de tua alma
Faltam métricas em seu coração.
E sozinho grita na solitária:
Sou poeta, matuto e ladrão.

Consomem o distinto de tua calma
E você, menino, deitado em pé...
Escorado nos ideias de paz e sangue
Suspira blues no cinza de horizonte.

No lavabo escorre o que sustentaria
Os livros, a prosa e corpo sem esquina.
Anularam quase tudo de lobo em ti
Restou apenas o que é poesia.

By Camila Passatuto

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sem primavera e cigarros, esse ano (Parte I)

O suor é o que banha meu leito e o copo vazio decora minha vontade. Hoje, durante a tarde, um telefonema rompeu minha só-cidade e me lembrou das dívidas superficiais que deixamos mundo afora. Após o oposto do silêncio anterior, atirei-me pelo corredor que liga a sala à cozinha, as caras falsas à fome mórbida... Deitado e observando o teto mofado, pude perceber que somos anulados pelo que realmente existe, se assim dermos conta disso.
O mofo no teto existe, se faz presente e escuro, presente e fedorento... Mas a poesia das coisas não se deixa existir assim, tão puta aos olhos. A poesia de um vestidinho florido é talvez um pau excitado, ou uma inspiração de regalo... não se sabe ao certo onde e o que se faz de engenho à poesia das coisas. Em que lugar o universo guarda a poesia do andar de um homem manco, ou a poesia do operário sem salário, ou a poesia dos falsos artistas... Quantas formas terá uma apenas?
E fico estirado no chão observando atentamente se daquele momento foge essa essência, ah, meu deus  - grito – e a poesia dos poemas? Resolvo esquecer como covarde, tento a água do filtro de barro, mas quem vence é a garrafa de Martini.
Reparo meu corpo tombado em alma, sempre mal ajeitado ao universo paralelamente unificado de ninfetas. Ah, quem souber em mim algo, deveria me ligar. O telefone ronca de inanição. E o lance da poesia não morreu naquele sujo e úmido chão de corredor.
Masturbar-se é tedioso demais e qualquer orifício quente e úmido custa minha simpatia forçada ou umas notas mal cobradas.
Deito no leito de morte do dia. Cama da salvação do que passou, modernos e interruptos sonos... por que insurgem as dúvidas e qual motivos de tais relatos? O suor é consequência da frieza em mim, calefação humana que sofro por ser minha própria inexistência.
E posso escutar o coração bater tímido junto ao meu que se petrificou, apaguei, mas aqui permaneço. Ninguém pode me escutar? Capricharam na madeira e nas coroas de flores. E mesmo assim aqui estou, insatisfeito com o que virá e com a curta vida que não passou.

Sempre me cobraram algum livro que nunca fiz e histórias que nunca pude viver. A máquina de letras miúdas se nega a registrar minhas mentiras e do lado de fora de qualquer livraria haverá um filósofo doente, sujo e composto de éter. Ele irá questionar meus poemas e como pastor de butique ironizará meus contos e se o acaso permitir, uma pedra partirá a orelha esquerda do suposto Platão. Ninguém saberá de onde veio o arremesso, pois do céu apenas água, pois do chão apenas a submissa massagem dos pés e dos transeuntes apresados que correm relógios em si, pela Av. Paulista, não há pedras em suas mãos... apenas na composição das almas de alguns. E o filósofo gritará meu nome, jogará pragas em meus apostos mal colocados, em minhas criações não paridas e sobre os poemas com mais de três poesias cada, ele se ajoelhará, as mãos irão acariciar a orelha rubra do líquido amargo e nesse momento começa a acontecer minha breve história.
São cinco horas da manhã e tão jovem a data no calendário cristão que penso que a pedofilia de viver é um dos crimes mais cruéis à minha eterna fadiga. Na noite anterior não me sei do que fui, também não importa. Sento corcunda do lado esquerdo da cama, na mesa do computador alguns vestígios de poemas,  tento ler e a visão me castiga. Acho que era sobre política, meninas e a falsa realidade do futuro paulista.
Rimar talvez fosse necessário, mas o momento é de versos largos e peso sólido sobre palavras já conhecidas por todos. Já no trem,  reparo as pobres pessoas e suas histórias sem importância para quem busca algumas luzes londrinas e certas alucinações turcas. Estou perdido em egoísmo. E penso em paz, humanidade, amor, bebidas, salvação, imperialismo e tudo um monte de mais algumas coisas.
Estudar uma profissão é a minha principal insatisfação, não que eu queira apenas viver de literatura, mas me prostituir não vale tanto a pena para a felicidade surgir alva em minha fonte do prazer. Gosto dos verbetes e das formas, mas viver emocionando as pessoas... Não acredito tanto assim nos depoimentos cedidos aos meus textos. Sento em qualquer bar e bebo da minha bebida qualquer, esperando aquele momento em que o mundo comece a fazer parte do que sou e assim pensar que todos interpretam a vida como um poema contemporâneo.

By Camila Passatuto