Biografia da Autora

Camila Passatuto nasceu em 1988, na cidade de São Paulo. Autora do livro "TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada" (Editora Penalux, 2017). Escreve desde os 11 anos e começou atuar nos meios digitais, com blogs e participações em revistas digitais, em 2007. Alguns trabalhos e participações: 2010, e-book “Apenas o Necessário”, co-autora da Antologia de micro contos reunidos pela Poesis, em parceria com a ETC Bienal, Fundação Volkswagen e Governo do Estado de São Paulo; 2012, Antologia “Nossa história, nossos autores (Editora Scortecci); 2013, escritora exposta na mostra de Twiteratura no Sesc Santo Amaro.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sobre Morrer.

A morte não dói. O que dói é o que a antecede.
Meu amigo, morrer não faz mal. E não chore quando se lembrar dos dias chinelos que levamos.
Morrer é verbo breve. Dura apenas alguns segundos.
Não chore minha ida. Chore a vida que levei, isso sim. Chore meus falsos sorrisos que tinham o objetivo de salvação.
A morte é dama suprema, nos liberta e é caminho de grandes oportunidades.
Morrer não é escuro.
Olhe para mim; sou alvo e desperto, depois de tudo.

Não lamente a perda. Lastime minhas dores sobre essa terra, isso sim.
Meu amigo, ir embora é ação. Não me imagine inerte no caixão.
Hoje eu sou vai e vem, sou vento, sou bater de asas. Não sou mais um corpo cansado e moreno esperando socorro.
A morte é amiga. Chega de leve, nos oferece um sorriso, elogia nossa roupa e quando notamos...  Ela já entrou sem pedir, sempre nos arrancando o riso, não é?

Meu amigo, não fale de tanta falta... Hoje estou bem mais recheado do que antes. Daqui eu posso tê-los aos montes, aos lagos, aos olhos, aos sonhos que sempre sonhei.
Morrer não é cheiro de crisântemos e madeira boa. Rosto molhado ou roupas negras.
Morrer é instante. Depois, só vida.

Meu amigo...  Entenda que quando abre a janela e sente a brisa, lá estou para mais um bom dia. Quando chega tarde e perde as chaves, lá estou... Eu rindo de seus alardes.
Morrer não é se ausentar. É estar em toda parte, esparramado do jeito que dá.
Morrer não é fim de arco-íris, é o pote de ouro enriquecendo a alma de quem bem quis.
Meu amigo, não se pergunte o que será de nossas vidas. Eu cá e você aí...
Eu aí e você cá... Talvez seja assim.

Cante nossa poesia por aí, porque morrer não é parar.
Para ti deixei meus versos e cabe a você, meu anjo terrestre, os gritar...

By Camila Passatuto

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Clepsidra

O tic tac do relógio avisa,
Eu viso terminar algum artigo.

Tudo breve para olhos secos.
Gostava de umidade quando criança.

A folha branca pedindo tinta
E o tic tac do relógio avisa.

Estamos escrevendo
Perdemos o tempo dos verdadeiros...

E os segundos
Sempre em primeiro plano para os modernos.

E o ritmo da máquina de dedilhar
Lento, lento... Lento demais.

Alguém chega e cobra o final
Mas digam a eles: Escrevemos para começar.

E o tic tac da vida lá fora
Afoga, poeta...Afoga.

By Camila Passatuto

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Manque Quelque Chose


Hoje não existe a esperança aqui.
Foi a última a me dizer adeus, foi.
Necessidade de mais alguém, não.
Deixe ir o que for para me agradar.

A regra corre assim, em dias ruins.
Não é a saudade que assola, não é.
Pisaram muito forte aqui, não dói.
O problema é que desaprendi a sentir.

Hoje não existe aquilo que um dia sorri.
Apenas quatro garrafas verdes, vazias...
Foi a última que deixei no pior dia, sim.
Não há gosto nem cheiro aqui. Suspeitos.

E corre de melancolia um licor na menina.
Os versos ficam mais largos quando penetro;
Penetro sentimentos com ou sem uniforme.
Lembro que hoje esperança não mais em mim.

E é mais um poema caduco de felicidade.
Caduco de meu penar eunuco
Triste de algo que vai e me amola,
É poema para não se ler na sua volta...

By Camila Passatuto

sábado, 11 de dezembro de 2010

Das contas não havidas

Reparei nas pernas torneadas, no sorriso amplo, nos cabelos longos...
Ela reparou no olhar, em puro descaso com o pudor, observou minha face enrubescendo após mais um gole quente de uma bebida qualquer.
Eu não quis mais olhar, ela queria mais olhares.
Acompanhou-me com seus passos curtos até a porta do bar, laçou o cós da minha calça  com os frágeis dedos.
Voltei meu corpo para aquele corpo pequeno, moreno, quente de algo que também me queimava.
Não havia som ambiente.
Apenas minha respiração... Sempre cansada.
Seu olhar brilhava, observando-me como quem venera algo grandioso.
Tudo ali era jogoso demais. Eu precisava ecoar externamente um ato que meu desejo lançava cá dentro e ela apenas precisava ficar na ponta dos pés para alcançar meus lábios...
Não havia som latente.
Só o passear de línguas, o cruzar de mãos, o magnetismo do meu com o dela.
Reparei nas pernas torneadas abraçando as minhas, no sorriso amplo censurando minhas mordidas, nos longos cabelos jogados sobre meu corpo.
Ela reparou meu tórax enrubescido por suas unhas... O relógio marcando dez horas.
Eu não quis saber quantos anos. Eu esqueceria o endereço; o nome eu guardaria para alguma poesia.
Ela abriu um uísque fuleiro. Eu enchi o copo para sanar o que do corpo esvaziou na noite passada.
E ali não havia nenhum suposto até mais.
Só restaria em mim um simples e breve conto, das contas não havidas, que passei com aquela fêmeamenina.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Canto Virgem, Ewá.


Ewá, Ewá, Ewá,

Mostre aos olhos o que longe há
Para além da pedreira
Para além da virgem mata
Para onde o vento forte levar.

Quebra onda, Beira-mar
É mais para lá do além
Da lama da Nanã
Do dendê de Iansã.

Ewá, revele ao poeta
A mansidão de criar
A fertilidade de renascer
Mostre, mãe, o amor florescer.

Não vejo algo...
Nas águas claras,
Nas ervas amargas,
Rainha do oráculo.

Ewá, minha mãe,
Mostre o que os olhos
Não mais podem
Mesmo se alma morrer.

Ao fim de tudo ver,
Leve-me, minha mãe,
Ao rei das palhas,
Para descanso de tanta visão.

Ao novo tudo parecer,
Leve-me, Ewá,
Ao rei Oxumare
Para eu lá das cores, novamente tudo ver...

By Camila Passatuto

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Na caixinha de sapato.

Hoje acordei alguém
Não importa quem
Eu sei que olho abriu.

Saiu daqui, da alma,
Foi no grito que rugiu.
Libertei alguém
Talvez eu, você... Ninguém.

Uma fêmea no canto
Disse, sem medo,
Que no meu peito
Havia padrões fuleiros.

Hoje eu acordei
Não me preocupei
Liberdade é isso
Eu não resmunguei. (ei ei ei)

Estamos sós
É madrugada
Não há dinheiro
Nem os tais padrões mandingueiros.

Voa quitanda
Sabores poluídos
Lambe
Pode-se entulho.

Rompe que é
Não mais, é.
Largue-me
Solte-a.

Hoje reviro alguém
Que não (re) passou.
Juventude nova (nossa),
Liberdade aprende.

E finda poesia,
Interpreta como leve.
E hoje acordei mais urbano,
Mais fuleiro... mais alegre!

By Camila Passatuto

domingo, 7 de novembro de 2010

Conversa Sem Beira.

Com o passar dos anos, que não foram tantos, o universo moldou essa mente que aqui dedilha palavras que talvez não possam ser tão importantes quanto qualquer outra coisa.
Venho para murmurar que aprendi.
Aprendi comigo, com os outros, com o nada... Com o desaprender.
Tornei-me também. Mudei-me, mudaram-me e se mudaram de mim.
Com o passar de pesares, que não foram poucos, o universo chorou e sorriu comigo. Foi meu único e confiável, escudeiro e implacável amigo.
Ontem eu não sabia, hoje sei e disso mais dúvidas... Sei menos.
No passado a alma não era tão exilada e de hoje para o amanhã será mais alva.
Aprendi.
Os inimigos são os melhores para te crescer, para te vencer... As guerras nos tornam e contornam, cria e destrói trincheiras; no final o que era seu, mesmo em posse do imperialismo inimigo, sempre será seu... Se assim quiser.
Aprendi que somos todos bárbaros.
Sou feito de barbaridades; pequenos e médios desastres.
Aprendi que sorrir salva, lava e desmorona barreiras.
Foi com o passar de gente que eu descobri que todos passam para ir e para voltar. Vai e volta, tão depressa, tão devagar que quando o tempo vai ver... Goza. Desfruta da oportunidade de ser passageiro, oh, Tempo!
Hoje eu vejo pessoas se mesquinhando, já me mesquinhei um dia, hoje não mais. Prefiro aqui no meu canto, sem quase nada, contudo... Sem nada de penar depois.
Aprendi a não ter medo. Mesmo com muito receio, aprendi. Mesmo sofrendo, não sofri.
Aprendi que odiar é tão difícil. Gostar é tão amável. Aprendi que amar é sagrado.
Para o Amor um altar separado. Longe de tudo que por mim for profanado.
Com o passar dos anos, não tenho certeza se serão tantos, terei que aprender sem querer, caso for necessário. Terei que engolir saliva quente e escrever o que aqui na alma me repreende, ou não, ou talvez... Só sei que terei.
Talvez eu tenha que ensinar, mas que isso nunca seja necessário. Quero viver solto, preso, filho ou estrangeiro. Eu quero.
Caso eu tenha que ensinar, mesmo que seja um só conselho, aqui eu o deixo: Debaixo da cama que conforta seu mais belo sonho, há um sonho melhor, enfie sua cabeça no escuro e o viva, pobre mortal, entenda... Aprenda
By Camila Passatuto

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ode à Ode

Diga-me
Quais são minhas verdades
Não conheço uma, diga.

Verdade exterior existe.
A que mora em mim,
Duvido.

Choro só
Acho que não
Deve ser mais dó.

Necessidade
Palavra grande
Qual verdade a sua?

Diga, menina linda,
Será minha mentira?
Pura, serena, cativa.

Algum trocado
Esmolo garotos
Nada: é sua verdade.

Fico em dúvida
Não me sei
Quem me sabe?

Hoje sem trabalho
Amanhã em retalho
Depois me despacho.

Qual a verdade
Do mundo?
É a economia.

A verdade
Do povo
Deve ser esquizofrenia

A mentira
Do poeta
É sua ladainha.

Da musa
As pernas...
Essas verdades são minhas.

Diga-me
A real tristeza
A falsa nobreza

Calo-te
Sem moedas
E sem verdades...

Não te sei
Não me sabe

Acho que sou mentira
E tu és, supostamente,
Minha verdade.

By Camila Passatuto

domingo, 31 de outubro de 2010

Existência 2.2

Sou mulher
Feita de outras tantas por aí
Altas, baixas, brancas, calmas
Todas que passam e se deixam em mim.

Sou homem
Feito de tudo quanto eu posso ser feito
De aço, cobre, pedreira e mata virgem
Tudo que me deixa robusto e forte.

Sou a idade avançada
Sou a juventude que anda por aí tão cansada.
Sou mistério de senha
Sou o relógio de bolso que te demora.

Sou canto de sereia
E colares jogados ao pé da cama
Sou pecado
Sou fé que de noite a criança clama.

Sou fim de verso
Sou o silêncio após
Sou mulher, homem, bicho do mato
Deixo de ser quando não quero e sempre sou.

Sou mais quando acabo
E deixo um bater escasso
Um sorriso de lado
Sou quando me findo em seus lábios.

Sou pequena
Sou esbelto e grandioso
Sou macho sou fêmea
Sou poesia, sou poema.

By Camila Passatuto

sábado, 23 de outubro de 2010

Contém urânio*

Rezou mais uma prece.
Mais fé, mais súplica.
Quer o bem
E para isso tem que sofrer.

Destruição em massa
Modelando o típico
O ridículo de sempre.
Mais fé, mais estridente.

Decide um ou outro futuro
Que não seja o seu
Não faz arte, não faz nada
Tem fé, tem coragem e não é.

Lá fora, lutam por poder
Cá dentro, ele luta
Por poder ser menos
Por querer ter mais.

Que fé? Que paz?
Permaneceu virgem de atos
Na catedral de mármore podre
Não luta por amor, por nada.

Releu relatos, não entendeu.
Pilatos, Jesus
E um cristo inventado.
Quem é? Quem eleger?

Ao sangue um dia jorrado.
Bebeu um gole de piedade
Véu sobre a consciência
Urna de prazeres em dormência.

Rezou mais uma prece.
Com dores dispares
Alívio não terá, sabe bem.
Mas insiste e me bate.

Grita em voz humilhada.
- Poeta, filho da puta,
Livre seus versos
Da escolha absurda.

Implorou como jovem no cio
Não sei se depois rezou...
Leu dossiês, reviu a matriz.
Era dia de eleger um nobre pingüim.

By Camila Passatuto

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Solidão em Sete Atos

Não falo de solidão... Porque dela, assim em tal ato, tiro a essência do existir.
É o que faço com a musa, com os temas e esquemas sutis que rondam minh’alma.
Poeta é sugador de existência.
Doa o que dói... Às vezes uma paz a mais.

Solidão que tão minha se tornou.
Hoje na varanda nem os fantasmas acompanham minha inanição poética.
O vento que não corre, faz pairar mais solidão em meus poros, o calor de estar só me envolve. Não reclamo, não lamento...
Eu sinto a paz que desenvolve meu eterno crescer de rebento.

Não sinto falta do que é ausente.
Solidão não é isso, solidão ainda deve ser definida poeticamente.
Se já se fez em algum tempo, pois bem, renovo definição, tão alegremente que irão morder os tornozelos e salpicar palavrinhas... Essa aí não é mulher sozinha.

Cai tristeza por onde caiu.
Cadê o pai, a mãe, os irmãos e irmãs?
Cadê a infância de pé sujo, de lenha e fogueira... Cadê o meu passado que não deve nem cobra...
Só de lembranças, de família
Do que fui quando criança.
Nego as dores e sou homens das mulheres e delas são as flores.
Cadê o colo de meu avô, seu chapéu, seu baralho... Nosso eterno corsário... Cadê?
Estou só de passado.

Solidão enterra minhas mágoas.
Das traições, dos amigos que nunca provei,
Do andar sem andares ao meu lado,
Dos sorrir sem outras alegrias, tudo um grande vão descompassado.
Solitário, seguro de sua existência... Segue feliz
Sabe o que não pertence
Sabe-se tão
Sabe-se só.

Estou só com o poema mais lindo que já fiz
Ele une almas
A minha com a sua
Ele une traumas.
Estou só com as músicas que ouvíamos.
Elas unem nossas melodias sussurradas durante o dia.
O meu grave e seu agudo.
Estou só, estou mudo...
Você colada n’alma,
Só assim enfrento o mundo.

Meus fantasmas esqueceram
De deixar um lembrete.
Que quando eu envelhecesse
Sairiam para bailar
Talvez comemorar meu encerramento,
Talvez por desacato ao meu viver.
Meus fantasmas esqueceram
Que não é tão feliz aquele
Que está só
Quando vai morrer.

By Camila Passatuto

sábado, 2 de outubro de 2010

Prece Poética

Deus, explica essa desavença de razão.
Como pode alguém ser tão triste e feliz ao mesmo tempo?
Deus, explica essa minha falta de emoção.
Para outros jardins não tenho mudas suficientes a florescer.
Meu Deus...
Alavanca em mim o discernir eterno do amor
A força que me faz calar diante de tanto esplendor.

Deus, meu camarada, diz a ela que não pode fazer invernada
Em sonhos que tão quentes quanto os meus, nada ascende...
Vivo em pecado com a verdade; toda sagrada vez que calo.
Calo em mim apenas palavras, meu camarada, grito a alma.

Deus das regras sem condutas,
Exige de mim o conter,
A fuga voraz. Onde, dela posso me esconder?
Diz a ela que não dá mais
Tive sonhos tempos atrás
Eu corria e impedia...
Hoje vivo a angústia que provia.

Deus, as madrugadas são santas nuas
Envolvem qualquer perdido
Como eu que vago em pensamento pelas ruas
Livrai-me das rosas sem pétalas
Dos vinhos que invadem em mim outro ser.
Deus, explica para mim
Qual o sentido de tudo nunca ter fim
Vivo como homem eterno
Esperando o que é ação em meu caderno.

Deus, diz a ela que na cidade as pessoas não existem
Que estou só entre os muitos sozinhos, cegos e mendigos...
Que arranjo um trocado com os poemas que faço, refaço.
Diz a ela que sobrevivo rindo dos pássaros da praça
Que mesmo com asas
Não conseguem se libertar de suas próprias almas.
Diz a ela que sou triste
Que sou pedinte
Que sou ouvinte dos homens que não tem o que falar.

Deus, onde está sua presença a não ser em todo lugar?
Então, diz a ela que sou teu
Diz que quando sentir saudade
É para pulmonar.
Porque tu és ar
Diz a ela que estou em ti
Que quando ela quiser ter a mim é só respirar.

By Camila Passatuto

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Na conta

Eu deveria ter descoberto nosso futuro nas praças.
E mais versos compostos de nossas travessuras, sim.
Dias e noites com mais linhas tênues dos corpos, da gente.
Eu deveria ter sido o jornal daquela manhã, eu deveria...

No sofá, tomou alguma decisão sem consultar, ali está.
Falou que eu poderia não ter tais destinos, outros abrigos.
Eu é que deveria não assumir e sumir; negou a renuncia.
Eu deveria ter gravado seus solos imaginários, hoje só...

As raivas sem motivos, eu deveria ter dado alguns...
Para os beijos esquisitos, deveria ter invento mais um.
O abraço que anula todo o resto; o meu gosto repleto...
Eu deveria ter colado nossos laços em pacotes maiores.

Eu deveria ter logado nossa senha e queimado os papéis.
Eu deveria ter cuidado melhor de seus sonhos, meus também.
Eu deveria ter bebido mais de ti, ter sido o pra sempre Romeu.
Eu deveria ter sido mais épico, mais romântico... mais Orfeu.

By Camila Passatuto

domingo, 12 de setembro de 2010

Ideia

Um dia, quando andava pela rua, percebi uma ideia batendo na porta que eu nunca abria. Como o dia estava frio demais para qualquer coisa ficar do lado de fora... Deixei entrar.
Cheia de si, instalou-se em mim. Gritou como fêmea raivosa e exigiu em claro som algo que não pude negar. Ela recitou um pedido que segue abaixo:

Ora, minha menina,
O tempo atrasa
Quando não percebemos,
Quando não fazemos nada.
Corre para seu papel,
O principal.
E tome posse da pena
Do tinteiro...
Faça de mim, algo
Que não salve só sua alma,
Mas o mundo inteiro.

Após essas palavras, tornei-me o que sou.
Alma vaga e mente liberta.
Alguns até dizem:
Essa é poeta.

By Camila Passatuto

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Espere, poeta...

Passei o dia todo com uma dor crônica. O tórax, que antes, tão inútil para as minhas atenções, hoje foi ator principal em todas as cenas. Ele dói, contorce minha face, escorre minhas lágrimas, dificulta minha respiração, endurece meu sorriso e faz uma tristeza pairar no contexto que abraça essa pobre criatura que em busca de acalanto se reportou às letras, aos garranchos azuis, às folhas tortas e mortas...
Dias assim, de dor intensa, costumam ser produtivos para almas que se deliciam no desabor da culminância de vida. Dias assim transcendem.
Para completar minha mórbida vontade de criar, o cinza do céu ficou mais baixo, pude visualizar todos os fantasmas redentores, mais conhecidos como anjos. Esses não entenderam a face rancorosa que eu, sem a arte a encenação, atuava serenamente.
Em algum momento vibrei fraquinho o som que explica: “eu sinto dor, meus anjos, eu sinto a dor que destrói sorrisos.”
Após apreciarem a melodia suave, entreolharam-se, doaram risadas e foram embora, deixando apenas mais dor em meu peito. Anjos são isso. Deveria ter compreendido que eles nos salvam apenas com esperanças, só que hoje eu decidi não esperar por nada.
Mover não seria a solução, remover muito menos... Passei o dia na inquietude que assombra qualquer enfermo.
Quis escrever poesia, mas logo lembrei que não podia... Isso só iria piorar a dor que se por hora era física depois dos versos seria dor de alquimia...
Não pude abusar da musa, estava precisando era de seus abusos em carinhos e cura em toques... Não quis mais escrever poesia, e isso não soou como regalia... Poeta quer verso que finda toda e qualquer dor, poeta quer viver verso para versar vivendo... Só que hoje fui mais além, neguei o que clamava aqui por dentro... Queria criar, mas não era verso que estava por nascer.
Percorri todos os cômodos da casa, cada um com suas lembranças em minhas paredes, eles se viram em mim, tatuados com meus sentimentos... Essa era a casa que me criou; esse o esconderijo que de tempos em tempos me injuriou.
Poderia criar um conto contando o que fui aqui, o que deixei de ser e o que eu quisesse contar, inventar mais sonhos e finalizar com esperança, só que lembrei que hoje eu não estava esperando mais nada... Resolvi deitar.
Meu cobertor, se ele pudesse dizer o quanto de amor por debaixo dele eu derramei... O quanto de felicidade eu trouxe para cá, nessa cabana que desde criança me abriga o sono. Viu-me crescer, sonhar, chorar, desejar e amar. Eu poderia escrever um livro com tudo o que ele viveu comigo, mas as lembranças machucam quando nelas está o passado de quem deveria ser presente e futuro.
Decidi descansar.
A dor sempre mais intensa com a calma do passar de cada segundo.
Respiração fraca, a glote quase fechada... Não reparei no que estava acontecendo, pois sonhava em relento, imaginava o meu amor aqui do lado, acariciando, confortando-me com um afago... Seus dedos virando meus cabelos e seus lábios na ponta de meu ouvido dizendo: “Cuidado, mas calma, estou aqui”. E meu sorriso nascendo esperançoso, cheio de vida, cheio do amor mais gostoso...
Respiração nula.
Glote totalmente fechada.
E não havia sorriso nem esperança, não havia musa ao lado de minha cama, porque hoje eu resolvi, por capricho de vida, ou de morte, não esperar por mais nada.

By Camila Passatuto

domingo, 5 de setembro de 2010

Desculpas de Poeta

Perdão ao leitor que leu e não gostou.

Não gostou de entender, compreende.

Não deleitou a possibilidade de criar.

Gritou: Ora! É tu, nobre, o autor...


Perdão ao mau entendedor de versos.

Que passou a profanar minh’alma,

Por não mais escapar das armadilhas.

Armadilhas obstinadas ao entender.


Perdão ao sonhador que se viu preso.

Preso em proposta de liberdade, livre.

Inquinado pelos sons do poema.

Sonhou ateu, sonhou plebeu...


Perdão às musas que não inspiraram.

Passaram cegas por meus olhos, assim.

Alvas demais, puras de vontade, pobres.

Sem cortes, sem versos. Ninfas egípcias.


Perdão aos sentimentos ocultos, sóbrios.

Que apenas em entrelinhas vivem, rainhas.

Comeram acentuadas dispersões do leitor,

Culpa do poeta que claro som não versa.


Perdão ao universo incorreto que consome.

Consome tudo que mistifico em almas...

Crio outros lugares, outros perdões,

Outros fins, como esse que se compõe.


By Camila Passatuto

sábado, 4 de setembro de 2010

Ao corpo.

Você está cansado, velho amigo.
Não respira satisfeito,
Não sorri,
Não desfalece no leito.

Todas as noites são claras
Em claro tormento.
A mente caiu.
O Espírito nem sempre eleva.

Você faz força para sorrir,
Você luta por esperança,
Você me pertence,
Corpo doente que balança.

Move o telégrafo dos prazeres
E nenhuma palavra de volta...
Você está cansado, velho amigo.
Tantos anos se decepcionando, cuidado.

As cenas que representam fortalezas.
Harmonia farsante,
Angustia desde a placenta, eu caí.
O Espírito nem sempre representa.

E você não pode mais caminhar.
As pernas tremem.
As mãos gelam, não sentem.
O peito dói, corpo balança.

Os dias que seriam de recuperação
Tornaram-se imersão.
Tempo vasto perdido.
Entre o clamar... O suplício.

Você pede ajuda, velho amigo.
Mas ocupados demais
Mas desajeitados demais.
Ninguém tem tempo, há volta...

Mais noites em claro penar.
Busca de algo.
Perdido entre almas,
Almas perdidas que não se acham.

E você chora, velho amigo.
Sou de ti inquilino.
Sou alma, tu me desde abrigo
E choro contigo; sofro a cada gemido.

E implora abrigo
E foge
E afasta
E se torna mais frio, esquisito.
.............................................................
N’alguma noite por vir
Na tristeza irá surgir
O desejo realizado
O corpo da alma libertado.

By Camila Passatuto

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Fracasso Moderno.

Permaneço imparcial,

Mas o que são parcelas?

O cartão venceu

Nas contas exatas.


O telefone toca,

Mais uma

Cobrança.

Exigência nossa.


Permaneço imparcial.

Os passos longos.

O corpo se movendo,

Cálido.


No chão mais um menino.

Permaneço espacial, olho.

Moedas, moelas... Tanto faz.

Ofereço de carinho breve.


Voltei para casa.

Juntei alguma riqueza,

Paguei as parcelas.

Mas falta o amor em minha mesa.


Acordo atordoado

Atrasei, acordei.

O mundo cinza

Exige polidez.


Hora do trabalho

Do que vale meu centavo?

Permaneço mais escravo.

Moedas, moelas... Escasso.


No chão mais um menino

Permaneço mais cansado

Ofereço de carinho breve

A rotina de vassalo.


Em casa o banho quente,

Masturbação não contente.

As contas, ponta de lápis,

Dias sem te ver, fico exigente.


O cartão venceu

Nas contas exatas.

No natal mando outro

Vai ler quando durmo nas escadas.


Da sacada de princesa

O ouro de mendigo

A realidade desse pobre

É cada verso que aqui digo.


Sem dinheiro, sem sonhos.

A fortuna é rasa,

Forma limites...

Expulsou-me de casa.


Permaneço louco vadio,

Na porta de algum banco,

Deitado em tímido canto.

Quando passa, peço um mango.


Olha sem jeito, reconhece tal sujeito.

Os lábios são os mesmos, desejos.

Moeda é o que joga no chão, agradeço.

Oferece de valor breve o que um dia não tinha preço.



By Camila Passatuto

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Insônia Travestida

E tudo sente sua falta.
Até o sono que foge,
Até o espelho, engole.
Insatisfeito, releio...

A obra que faço,
No meio,
Pernas.
Esqueço.

Não há o descanso,
Olhar não morre.
Noite intensa.
Dormir não pode.

Configuro paixões,
Dores e noites.
Combino tempos,
Eternos e discretos.

E tudo sente sua falta.
Até a conta que vencer,
Até as unhas por fazer.
Mel escorre lágrima.

No trabalho tudo certo,
Na ilusão eu peco.
Não permito o sono,
Culpa do teu abandono.

Hoje jogado na rua,
Lamentado, escorado.
Escrevo para mim.
Sempre foi assim...

E tudo sente sua falta.
Mas é desculpa de poeta...
Para não dizer a verdade.
Que só minh'alma chora essa louca saudade.


By Camila Passatuto

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ele/Ela

"Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja,
Não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja."
Belchior


Caminhou tão depressa que fez do caminho longo algo banal para o relógio. Estava na hora, não sabia ao certo que hora era aquela que por entre mistérios revelados escondia sua importância. Não sabia de nada, dos motivos que o moviam, das trapaças que com delicadeza sem sentir tropeçava. Que sem sentir... Amarrava.

Era um dia qualquer, com um compromisso qualquer. Abriu a porta de madeira que rangia feito uma fêmea mal devorada, sentou no sofá pouco confortável e tratou de banhar o ambiente com seu despretensioso olhar. Nada viu. Nada que o levasse ao delírio da transcendência infantil de tempos atrás.

Chega à sala quem um dia foi imã. Saia justa, uma camisa social quadriculada e os pés abraçados por um par de pares distintos de meia.

Ele a fitou discretamente, olhou como quem reprovasse aquela beleza molambenta, aquele cabelo longo e negro, aquela atmosfera de inocência ninfomaníaca em que ela sempre o envolvia. Ele, em um suspiro sem carisma, esnobou aquela breve criatura, tão breve que vivia em alta freqüência em seus pensamentos, que passava o dia todo pulando nas lembranças.

Ela carinhosamente despercebeu o esforço que ele fazia para manter no chão todos os sentimentos sórdidos, hoje chamados assim, tempos antes eram sonhos.

Ele percebeu que as horas eram desiguais para ambos.

Para ele aquele momento era o único segundo após o fim. Fim de anos, fim de intermináveis meses, fim de dias sem ela. O fim dos sonhos. Do sonho de ser dois, um, tudo, nada...

Para ela aquele momento era mais um segundo que pedia outros segundos, esse tempo que ainda falta. Tempo de espera, tempo de apostas infundadas, impensadas...

Dos desejos mal ditos, eram-se.

Ela nada tinha para falar. E ele pensava que ia escutar...uma palavra qualquer, um aviso implicante, um estilo de rompimento verbalizado e oficial.

Ela nada tinha em palavras.

Ele desejava.

Ela era seu imã, não importava a situação. Não importava o que se tornavam a cada tristeza ou esquecimento.

No ato mais solitário ele rompeu o silêncio. Rugiu o ambiente quando levantou do sofá. Ela estremeceu, pois tudo estaria prestes a acontecer. Tudo, Tudo que nem imaginava o quê.

Ele sabia que não agüentaria mais uma de suas meninices, as provocações e acusações sem nexos e arreios.

Resolveu tomar a atitude. Certas atitudes queimam. Mas estava disposto a incendiar, e quem ou o quê fosse frágil, iria virar cinza, cinza.

Ela estava disposta a gelar. O estomago já soprava os ventos nórdicos.

Ela, apenas, queria uma brisa que não ferisse a paisagem intocada do passado que, sem ele saber, ela o guardara intacto in memorian e no corpo e no quarto e na cama e nos versos que para ela eram dedicados e recitados por seus lábios toda noite, toda saudade, toda insanidade.

O ambiente daquele apartamento era de uma urbanização alarmante. Dois transeuntes prontos para se atropelarem. Uma placa de trânsito, roubada pelos dois nos tempos de amoras enlatadas, exposta um tanto torta na parede de textura um tanto grunge, é que assistia aquele quase engarrafamento de nada, de tudo.

Ele com a mão direita no bolso e a esquerda coçando a barba, parecia o mais centrado dos dois. Ela com a perna direita em cima do sofá, o corpo inclinado para ele de modo tímido e quase invisível, as mãos soltas, os seios firmes e algo mais a fazia ter um caráter despojado e dominador.

Mas qual dos dois iria ceder aos centímetros?

O medo de ambos de se machucarem. O medo do: não alheio, isso era contrastante, junto com a certeza da necessidade das infantis almas postas mais um vez em caminho comum.

Ela esperava o momento certo dele.

Ele esperava a certeza dela.

Eternamente o medo.

Eternamente aquele instante que não sabiam de nada, dos motivos que os moviam até aquilo, das trapaças do destino que com delicadeza sem sentir tropeçavam.

Que sem sentir se amarravam...

Qual dos dois?

Mas qual dos dois iria ceder aos centímetros?

Ele queria sonho, fechou os olhos.

Ela queria sonho, percebeu a recíproca antecipada daquele cara, que sempre antecipava, ejaculava nas preliminares, adivinhava suas dores e desejos, chegava em primeiro lugar em sua alma, até mesmo quando atrasava.

Eles queriam sonhar.

Eles queriam terminar aquele ato indeciso de desconhecidos... na cama, no café da manhã, na caricia após um murmuro, no torcer de nariz, nas brigas, no altar, nos filhos, nos problemas, no amor, nos problemas, em mais amor, na velhice, no cansaço, no orgulho, na felicidade, nas brigas, nos gozos, nos acidentes, nas sortes, na vida, na doação de suas mortes...

Mas ela esperava o momento certo dele.

E ele esperava a certeza dela...



By Camila Passatuto

sábado, 21 de agosto de 2010

Marinheiro

O mar; amaldiçoado mar.
Das ondas traiçoeiras,
Das mortes,
Das perdas.

Sua imensidão não me cativa,
Não emociona,
Não me convida,
Fala-te, sussurro infernal.

Mar que invade meus sonhos.
Faz-me afogar, mar que entra,
Mar que sai, mar que é tormenta.
Mar que só traz a vontade de chorar.

Seus peixes não me alimentam,
Suas ondas só em quebra-peito.
Seu azul estonteia.
O que em ti reluz é alma fagueira

O mar que estranha,
Faz amores, ondeia paixões.
O mar que repete o linguajar, chuá
É o mesmo mar que me faz chorar...

Amaldiçoada vastidão em ti.
Seduz quem pode,
Leva para longe, leva.
Esconde meus botes.

Não navego, não velejo,
Não viajo em tua bravura.
Teu mistério se revela
Cúmplice de minha sepultura...

By Camila Passatuto

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Rei

Em meio aos bosques, procuro e não sei por onde anda a doce felicidade. Em mim, o que move, remove e comove quem vê, é apenas um vento frio que ocupa meu ser em dias constantes de penar.

O sorriso que trago, no estreito rosto, é singelo mistério, ninguém percebe...

E por entre apostas majestosas o meu corpo se lança, o riso sai fácil, a bebida entra lenta e amarga como a velocidade que me esquenta. Tudo tão irreal.

Nunca fingi tão bem.

Depois que partiste me tornei algo ruim, ruim para mim, ruim para a minha sóbria verdade; hoje sou de gosto peculiar para quem deseja provar e cuspir, e redimir em si a vontade do que é bom.

Nada está bem aqui. Não queria que soubesse disso. Não queria que imaginasse a minha dor, pois se imaginar corretamente vai sofrer parte do que sofro.

Sofrimento seu aumenta o meu. Desfaz o querer saber em ti.

Em meus aposentos, no meio da gélida madrugada, que conforta os sentimentos dos espectros amigos, esses que percorrem minha mente, meu corpo, minha sanidade doente, minha luxuria fétida, meu humilde presente caído em forças de si... É onde o sono tem medo e foge, é quando olho para dentro e vejo ruínas, lavas borbulhando, seres clamando por compaixão, lágrimas que em contato com o magma faz rocha em meu chão.

Sou isso, louco monstro da torre em transmutação, sem rumo e não só perdido, mas sim desviado a cada insensato torpor de tristeza.

É uma perda constante, sou eu navegante...

Não sei se imploro ajuda, não sei de nada...

Comigo, o sentido do futuro, não anda mais... É minha farsa tentando me convencer, é meu sujo orgulho tentando, de mim, tudo esconder.

Construí esse castelo de proporções amigáveis e com bases sólidas. O governo, que aqui regia, era sincero, com soldados armados de fidelidade e coragem.

Eu ainda possuo o meu reino, os papéis, as dívidas, as guerras... Eu ainda tenho tudo, ainda administro a província abandonada.

Eu ainda sou rei. Ainda decreto amor por aí. Eu ainda não percebi que o conto feliz da Idade Média não é mais aqui...


By Camila Passatuto

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Política, Senhor!

Suspirou. Estava mais que nervoso. Uma multidão esperava mais um daqueles discursos, iguais de qualquer candidato. Mas ele era diferente, ninguém percebia...
Que pena.
Aos passos rasos e confiantes, se colocou diante de todos.
Não havia discurso, não havia mais nada depois de tanta luta; apenas aquela vontade tamanha que poucos iriam entender.
Então, falou firme: Eu amo esse país.
E bastou.

Desconfortou quem não podia, encheu de pavor quem nunca temia.
Suspirou.

Nada queria e de nada adiantaria convencê-lo...
- Amigo, Política é zelo, fama, grana... No bolso de quem engana, na vontade de quem profana.

E de nada adiantaria...
Aquilo que parecia um resto de homem com a mente sã, ou um resto de mente em um homem são...
Não era uma nem outra situação.

E todos pararam. E ele continuou.
Por coisa qualquer para seu país, por aquilo que chamo, firmemente de: Amor.

By Camila Passatuto

terça-feira, 17 de agosto de 2010

É Vida

Por menos que eu pense, é sempre mais.

Por mais que você fuja, é sempre menos;

Menos espaço entre as tais almas, mortais.

Por mim e por nós, nada embaça, alivia...


Meninos que almejam um troco, esquina.

Velhos que se bebem em garrafas. Espia.

Tudo plenamente certo, no errado, é vida.

Respiro essa angústia somente por mim...


É vida que não cala o meu horror a tudo,

Por você e seus dejeitos de ancorar, sim.

Em mim se fez cicatriz, fui porto, fui sim.

Por mim e por nós, quem dispara emoção?


Senhores de cartolas bem postas na cabeça,

Senhoras em vestidos cúmplices de nobreza.

Suspiro a maldição que vem em brisa, ria.

E tudo plenamente certo, no errado de

nossas vidas.


By Camila Passatuto

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sobre

Não basta sentar e digitar, porque isso não faz o menor sentido. Palavras perdidas em sombras narcisas. Não.
E pensar no ritmo, tão falado, tão temido
Não sei se falo o que penso ou invento algo logaritimando, rimando, inventando...
O que a certeza me consome, ou nutri, é o querer, o implorar de desejos, o não caber-se em si, é o ato, é o que demais volátil há... Não materializo palavras, nem quero...
Pelo passo que caminha cada vida de meu dia, de minh’alma, um tanto achada, outro tanto esquecida, por isso e por mais nada, havendo posse de meios... Ah, musa, eu escrevo.
Verbalizo e nomeio, no canto de qualquer papel, qualquer vontade, qualquer fina saudade.
Que salve, que mate, que realce em nós, humanos, o mais simples desfalque que faz um mar em centímetros rolar na face lânguida de um perdido leitor, antes mesmo, escritor.
Se já basta é porque nunca foi escassa a tal poesia que todo dia o poeta, doente de palavra, caça.
Não basta sentar e digitar... Porque o que o universo pede é coisa grande, pede é coisa da alma de gente simples, que chora e resmunga, como qualquer outra, só que por motivos casuais nasceu com um karma a mais na vida, que é se refazer em poesia.

By Camila Passatuto

domingo, 8 de agosto de 2010

Ladino de rua

Andei pelas ruas

Já descrevendo,

Já escondendo,

Ouvi histórias.


Velhos sorrindo.

Novos, não mais,

Sabe-se lá como,

Reagindo.


Um enredo falso

Cantarolei aqui.

O sol quente

E Cartola, sorri.


Andei mais ali

Entrei em igreja

Sai feliz de bar

Senti certeza.


E de vida vazia

Não morrerei.

Ando triste,

Mas ando, sou rei.


Roça, mar, deserto,

Cidade...

Com ou sem amor

Por perto.


Andarei longe

Sem futuro

Sem medo,

No escuro...


Procurando

Sem achar

Palavra,

Verbo. Amar.


Andarei com você

No pensamento,

No livreto...

Ah! Livramento.


Pelas ruas, ando,

Conheço o sofrer...

Felicidade aqui

Por poder, isso, escrever...



By Camila Passatuto

domingo, 1 de agosto de 2010

Pula

Amigo, por onde anda agora?
Falaram que não mais, não...
Não parte da poesia da vida
Amigo, por onde cai tua alma?

E dos versos matinais, urbanos,
Fora de leis conscientes...
Foi o primeiro poeta que conheci.
E de nossa infância... O que foi que esqueci?

Dos litros que se fumou, delírios.
Das gírias que ninguém prevê.
Dos rumos estranhos,
Eu me salvei... E você?

Falaram que se fez anjo,
Pulou da ponte mais alta.
Sentiu o que poetizamos,
Distintamente... se fez alma.

Hoje a rua perdeu seu dono.
Ora marginal ora intelectual.
A polícia te temia.
O vagabundo te enaltecia.

É, meu amigo, se foi...
D'onde foi que tomou coragem?
Para uns é marginal
Para outros; capa de jornal.

Alguma outra droga fácil
Envolveu teu corpo, eu sei.
Não mais covarde. Pula!
Parte em paz, sem vida futura.

(Em memória de Guilherme França)

By Camila Passatuto

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Alforria

Pelas ruas em festa, seu temor.
Quanta liberdade ainda nos resta?
São fases, meu amigo, sem cartazes,
Sem dizeres do suposto fim.

Correm crianças calçadas...
No portão, conversa descalça.
Não mais importante pensar.
Agora se é livre para sonhar.

Nos colégios o que se ouve?
O que houve com a vitalidade?
São jovens, por pouco, covardes;
Filhos dos filhos da tal liberdade.

Verso se perde em entulho,
Cospem em pensamentos...
Querem nada que sonha,
Liberdade pariu peçonha.

Pela rua em festa, o poeta.
Pessimismo de lado, exige.
Mais um gole a favor.
Mais um filho com temor.

E quem se prendeu ao obetivo...(?)
Corre por aí um sorriso.
Liberdade em alto estilo
Só por hoje não faz sentido.

By Camila Passatuto

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Não. (Poema nove meses)

Não saí de ti, não descobri a brisa,
Nem bebi da fonte de seus seios.
Não senti teus arreios, que pena.
Não fui alarme de sonhos teus.

Não implorei sua atenção nos domingos.
Nem te ofereci a felicidade do que fui,
Não desobedeci tuas regras,
Não rimei teus palavrões.

Não te coloquei o primeiro fio branco,
Que em ti foi alarde.
Não vomitei em teus pés...
Nem chorei para que comprasse chocolate.

Não me viu cair a primeira vez
Nem à segunda
Nem no infinito sábado de aleluia.
Não sonhou que eu fazia fortuna.

Não corrigiu meu português...
Nem nada
Que todas fazem...
Todas iguais. Iguais a você.

Não te grito sonoramente.
Não te assino formalmente.
Mas quando abraça, me sossega
E de meus lábios a palavra 'Mãe' quase escorrega...

By Camila Passatuto

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Menina

Olha, menina minha,
De suas lágrimas
Fez-se o lindo lago
Que te banhas feliz.

Olha, minha menina,
Curei as cicatrizes...
A pele está macia,
Agora acaricia.

Olha, menina linda,
Abre teu sorriso,
É nisso que eu
Sempre me inspiro.

Olha, menina minha,
Me inventa
Me ausenta.
Policia minhas malícias.

E caso o acaso quebrar
Os sonhos dos versos...
Lembra, minha menina,
Tudo na vida reinicia...

By Camila Passatuto

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Prosa Morta

O corpo todo tremia, estremecia.
Gemia em fêmea dor, menina.
O corte profundo de alma, resolve.
Aquela agonia respeitável, amém.

Sobre meus ombros, seus açoites,
Sem minhas rasas rimas, a noite.
Seu sangue ralo, minha loucura densa.
Geme fêmea. Repete versos, elegância.

Horda inversa, devora meu silêncio.
Treme reajuste descalço. Eu tremo.
Virgem, o quanto custa?... Sangra.
Seu sangue ralo, de alma o corte, resolve.

O corpo todo tremia, estremecia,
Mal eu sabia em noite de esquiva
Que o corpo que, ali, em mim caia
Era prosa de mulher, prazer sem poesia...

By Camila Passatuto

terça-feira, 22 de junho de 2010

Jaz (Corpo Poético)

Ferida exposta.
O que jaz,
O que traz,
O que o corpo ainda suporta.

Adentrando fria
Cada centímetro
De dor, rancor,
De palavra na derme, escrita.

Verso neófito.
Verme,
Verte em nós
Arte livre em necrópole.

O que jaz,
Poeta,
É o que traz... Em ti...
Ferida, assim, imposta...

By Camila Passatuto

domingo, 13 de junho de 2010

Haicai Noturno

Sou madrugada,
mas estou noite.
Loucamente estrelada...
Que a lua me açoite.

By Camila Passatuto e Evandro Gomes

sábado, 12 de junho de 2010

Pedido

Não
Ninguém está aqui para escrever o que parece estar escrito.

Não estou aqui
Se pareço presente é para talvez ser eterna n’algum tempo.

Não escrevo
Tudo o que se diz palavra é fundo sentimento.

Não pense errado
Não me digo em canções, não me afirmo em sonetos... Nem nada.

Não maltrate, nem beba veneno
Leia e perceba qual encanto nutre seus olhos, depois apareça, me conte.

Não ligue para os primeiros versos
Sempre a segunda linha que mira tua alma é fagueira, sorrateira... Envolve-te.

E Ninguém está aqui para escrever.
Escrita é uma coisa,
O que faço é outra.
Permito que seja efêmero o que digo.
Se te pertence,
Canta.
Leva contigo,
Mas cante para sempre.
Caso contrário
Mata o que inspiro.

By Camila Passatuto

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Vale do Diabo

De meias palavras, de palavras inteiras, de silêncio repleto de dizeres. Assim segue o poeta, doente de sentimento, pelas ruas úmidas da capital paulista.
Onde surge poesia.
É cada passo adiante, um olhar focado por ali mais distante, não repara... É reparado, moldado e enfeitado de acasos.
Segue o poeta. Passarelas e teatros municipais ilustram a pintura cinzenta que oferece a quem vê, a quem lê... A quem sabe poesia, a quem vive por entre espíritos rodantes e moradores do vale do diabo.
Poeta Anhangabaú, triste de nascença. Sorri com olhar quebrado, tem medo do escuro, porem navega no breu das entrelinhas.
Sabe-se. Duvida-se. Pergunta-se. Mente-se.
De meias palavras. Inteiras mulheres. Repleto de espírito.
Move-se inconstante por simplicidade depressiva, alegria efusiva, amores singulares, amor de vida, amor de morte... Poeta Anhangabaú, senta nas escadarias da Praça Ramos de Azevedo, sem papel, sem escrita e faz da solidão e do mistério a mais sensata poesia. Para os transeuntes, para os negros felinos, para os leprosos e meninos.
Mais (r) adiante. A galeria.
De quantas melodias se compõe uma vida, sua dissonante vontade exige passos tímidos por entre jovens coloridos.
Rolante. Escadas. Guitarras.
Poeta distraído faz um verso sem querer entre as pernas da garota. Saia justa, texto amplo e sua mocidade não tradicional o expulsa do fatídico local.
É na rua. Poeta procura a musa. Tão distante. Inferno de Dante.
Rua úmida. Capital escura.
Poeta Anhangabaú, sozinho, doentio, vestido de palavras... Nu de razão.
Poeta Anhangabaú. Seu. De meias palavras, de palavra nenhuma, de verbo deslocado e do sempre vale do diabo.

By Camila Passatuto

domingo, 6 de junho de 2010

Poeminha Feio

Vou ser simples em meus versos,

Vou ser o que estou... Verso triste.

Um pedaço de saudade, verso livre.

Um imenso de amor, verso, verso...


Tanta coisa para falar,

Mas quer silêncio.

Sou de som,

Sou de falar quando estou triste.


E o verso fica descabido no poema

Fica feio

Fica como estou

Jogado e assustado.


Não tem rima, não.

É simplicidade de poema.

Não tem forma.

É conteúdo triste de poeta.


Ah! Eu devo gritar por você,

Pedir aos deuses algum licor.

Clamar o quê? Nada mais de dor?

Fica feio...


Vou caminhando em versos simples

Sem métrica

Sem nada de pensar

É só sentimento... É amar.


Fica feio,

Devo por arreio nisso tudo.

Mas talvez depois...

Quando isso em mim se for.


E se o verso fica descabido,

O que cabe a mim?

Digo que sofro?

Mas fica feio...


Chama poeta de chorador

Inventor de palavras

Dramático velho

Desajeitado sonhador.


E assim vou

Triste, desbravador e assumido

E assim fico

Feio, meio ao meio... Esperando abrigo.



By Camila Passatuto

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Musa

Tu és fraca demais para os meus sentimentos febris. Virgem demais para meus desejos avançados. Linda demais para minha dor ofegante, para esse peito roído, para essa vida poeta que levo em negros rios. São olhos, menina. São olhos de quem sangra, são esses que te olham, te vigiam, te condenam por despertar anseio, desejo, tudo isso que me faz esconderijo de liberdade, de sentimento seu. Vem e pega. Arranha o poeta, se tem medo, vai e come meu desespero.
Tu és forte demais para minhas palavras, onde te coloco, quebra um verso e liberta um sentimento. Por que faz isso? Por que és em minha vida o que demais amo, o que demais tenho fé, por que é em mim o que demais reluz, o que demais vive...?
E pelas ruas quem me vê sabe que tu és o que demais me move, o que demais foge... Entre meus passos... E tu és caminho demais que se encontra com minha estrada de terra... Tu és o que digo e o que calo. Tu és poesia e quando quero és apenas o que quero.

By Camila Passatuto

domingo, 30 de maio de 2010

Cor

Cor de pele é coisa estranha
E qual a cor da sua alma?
Cor do olho enfeitiça
Mas qual a cor da sua alegria?

Ver o que é
É quase mentira
A verdade, crua e quente...
A gente sente.

Seu dinheiro é azul,
Sua necessidade é negra
E quem vê o sorriso
Engana-se, é infeliz...

Não basta nada disso.
Evidências,
Ver o que é
É quase mentira.

Então, corro apressado
Quero seus olhos
Olhando o que sou
E sentindo o que não vê.

Cor de gente, nem sempre,
Nem sempre é bonita,
Mas a minha com a sua
É coisa mais divina.

O governo tem cor,
A cor da desilusão
Dos sonhos que tivemos...
Acabaram... Com gente sem um tostão.


Então, corro apressado
Quero seus olhos
E não ver as lágrimas
Quero sentir abraço.

A poesia chega ao fim,
Sem cor na roda das cores.
Branca e solene...
É poesia simples, é coisa da gente.

By Camila Passatuto

domingo, 23 de maio de 2010

Coisas Nobres (Samba)

Recuso qualquer coisa,
Vou lá fazer uma fé
No jogo de algum bicho
Ou no samba do seu Zé.

E se você aparecer
Logo arrumo um trocado
Te levo para um canto
E vamos beber um bocado.

Recuso qualquer coisa,
Só verso assimétrico que pode.
Só que hoje bateu desespero,
Mas vamos beber e nada de bode.

Caso caia da polícia aparecer,
Não se preocupe.
Sozinho eu te protejo,
E larga essa coisa de trupe.

Vou lá fazer uma fé
Se ganho, pode crer
Vai ter muita grana
Só pra mim e pra você...

By Camila Passatuto

sábado, 22 de maio de 2010

Fome, poeta.


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Pela calçada quebrada, são meus passos,
Na cabeça do matador, são meus rastros.
Os doentes que esperam não me leem, não.
E famintos que esperam não te condenam, são.

Pela mesma situação, eu escrevo e você lamenta.
Quais atos valem e rege qualquer rima, poema...?
Que a escrita seja liberdade, mas para quem?
Que seu calibre seja vida, mas para quê?

Venham, pobres, poetas,
Pensadores de desconhecidas razões.
Abram alas para esse povo
Que de grande só tem o coração.

Pela calçada quebrada, são meus passos,
Pelo folhear de páginas, olhos descalços
Que sentem na alma o poder de cada verso.
E famintos que me esperam não me condenam.

Venham, pobres poetas!
Venham, assassinos!
Venha quem tem fome de saber se tem arroz,
Poesia e prosa. Comam, sonham e digiram só depois...

By Camila Passatuto